Mudanças climáticas e transição energética estão entre os desafios que o próximo presidente do Brasil terá de enfrentar. Especialista consultado pelo Olhar Digital analisou as propostas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que concorrem no segundo turno, para essas duas áreas.

A transição energética consiste em mudar a forma como o mundo produz e consome energia. Durante mais de um século, a humanidade dependeu fortemente da queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão mineral e gás natural, para movimentar indústrias, veículos e gerar eletricidade. No entanto, substituir gradualmente essas fontes poluidoras por opções limpas e renováveis – como a energia solar, eólica, biomassa e o hidrogênio verde – tornou-se uma urgência global. 

O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário, pois já possui uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta e tem um enorme potencial natural para liderar a produção global de energias do futuro.

Ainda na agenda ambiental, as mudanças climáticas impõem desafios práticos à infraestrutura e à economia do país.  O aumento da temperatura média da Terra, causado pelo acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera, manifesta-se em eventos extremos cada vez mais frequentes, como secas históricas, ondas de calor severas e enchentes devastadoras em centros urbanos e áreas rurais. 

Os candidatos à Presidência apresentam diferentes propostas para o setor energético e o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas no Brasil
Os candidatos à Presidência apresentam diferentes propostas para o setor energético e o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas no Brasil – Crédito: Imagem gerada por IA

Paulo Eduardo Artaxo Netto, físico com doutorado em física atmosférica e professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), enfatiza que a dimensão continental e a localização tropical tornam o país extremamente vulnerável aos impactos do clima.

Para conter os danos, ele afirma que o papel do Estado e a cooperação com o setor privado são decisivos. “É evidente que sem políticas públicas adequadas e implementadas corretamente, obviamente não temos saída para a questão das mudanças climáticas”.

A forma de responder aos impactos varia entre os presidenciáveis. Os planos de governo protocolados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dividem-se entre abordagens focadas em metas de neutralidade de carbono, mecanismos de mercado e regulação, ou medidas de Defesa Civil e segurança para o agronegócio e os centros urbanos.

Os caminhos que os postulantes ao Planalto pretendem seguir nessas áreas são decisivos não apenas para a preservação ambiental, mas também para o futuro da economia, a segurança energética e a qualidade de vida dos brasileiros. 

Clima e energia: as propostas dos presidenciáveis nas Eleições 2026

Conheça a seguir as diretrizes e propostas que constam nos projetos entregues à Justiça Eleitoral em relação a esses dois temas pelos dois candidatos à Presidência da República que disputam o segundo turno nas Eleições de 2026.

Vamos começar com um resumo:

Resumo das propostas dos candidatos em relação ao clima.
Resumo das propostas dos candidatos em relação ao clima. – Crédito: Imagem gerada por IA com base nos planos de governo apresentados pelos candidatos
Resumo das propostas dos candidatos em relação ao setor energético.
Resumo das propostas dos candidatos em relação ao setor energético. – Crédito: Imagem gerada por IA com base nos planos de governo apresentados pelos candidatos

Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

No plano de governo do atual presidente, a agenda climática e a transição energética aparecem como eixos centrais do desenvolvimento econômico nacional. A candidatura reafirma o compromisso de reduzir entre 59% e 67% as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035, em relação aos níveis de 2005, por meio de políticas de transição ecológica.

Ao analisar o plano de Lula, Artaxo ressalta o histórico positivo no combate à devastação na Amazônia. Para o professor, essa queda no desmatamento coloca o Brasil em destaque global na contenção de gases poluentes. “Tivemos uma redução do desmatamento da Amazônia em 51%, que é um valor extremamente elevado. Nenhum outro país reduziu as suas emissões com a magnitude que o Brasil reduziu”.

Na área de energia, a proposta prevê a expansão da infraestrutura elétrica com fontes solar e eólica, além da modernização hidrelétrica. O plano aposta nos biocombustíveis com o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro. Paralelamente, defende a exploração de petróleo no Pré-Sal, sob coordenação da Petrobras, como estratégia de segurança energética.

Para o físico, um possível próximo mandato precisaria dar destaque efetivo a essa mudança. “Agora, nós temos que avançar na questão, por exemplo, da implementação da transição energética, que ainda está realmente engatinhando no Brasil, infelizmente, e é fundamental que, se reeleito, Lula efetivamente implemente políticas que façam da transição energética um ponto central da questão climática como um todo”.

No aspecto social, a candidatura propõe ampliar o acesso à energia elétrica e manter a gratuidade da conta de luz para consumidores do programa Luz do Povo, reduzindo o peso dos gastos com eletricidade no orçamento doméstico.

Em relação ao meio ambiente, o plano prevê o fortalecimento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para combater o desmatamento, recuperar áreas degradadas e incentivar a bioeconomia.

Artaxo alerta, contudo, para os entraves políticos que o presidente terá de superar no Poder Legislativo. “Lula vai ter que enfrentar um congresso dominado pela extrema direita que sempre se opôs a cláusulas como combate ao crime organizado na Amazônia e à grilagem de terras na Amazônia e assim por diante. Isto, certamente, vai trazer dificuldades na implementação de políticas no próximo governo”.

A proposta inclui ainda ações de adaptação às mudanças climáticas para proteger comunidades vulneráveis contra secas e enchentes, buscando integrar a conservação da biodiversidade à geração de emprego e renda.

lula oficial
Lula, candidato à presidência do Brasil pelo PT – Foto oficial da candidatura registrada no TSE

Flávio Bolsonaro (PL)

O plano de governo de Flávio Bolsonaro prevê integrar a transição energética e a preservação ambiental à segurança nacional, ao desenvolvimento tecnológico e à competitividade do agronegócio, com ênfase na exploração de recursos estratégicos, na participação do setor privado e na segurança jurídica.

No setor elétrico e de combustíveis, a candidatura propõe o Programa Nacional de Segurança Energética, associando a transição à exploração de minerais críticos, como lítio e terras raras, para o desenvolvimento de baterias e componentes industriais. O plano prevê também a ampliação e modernização dos sistemas de transmissão.

Artaxo questiona como as propostas ambientais de Flávio Bolsonaro seriam colocadas em prática. Para o pesquisador, as promessas apresentadas precisam ser avaliadas à luz das medidas efetivamente adotadas por governos em outros países. Em sua análise, há uma distância entre os compromissos descritos no documento e as ações necessárias para enfrentar a crise climática.

O docente estende suas ressalvas à governança ambiental de administrações que compartilham da mesma matriz ideológica e programática de Flávio Bolsonaro, argumentando que regimes correlatos historicamente negligenciam as diretrizes de sustentabilidade. “Governos de extrema direita, como o possível governo de Flávio Bolsonaro, são conhecidos por não tratar adequadamente a questão das mudanças climáticas, inclusive com uma postura negacionista de negar que elas existem e de, essencialmente, priorizar a exploração o máximo possível dos recursos naturais sem efetivamente cuidar dos interesses da população como um todo”. 

Outra proposta do candidato do PL é transformar o Brasil em um polo internacional de data centers sustentáveis com energia renovável e baterias de grande porte. Para reduzir custos, defende a diminuição de impostos sobre a conta de luz e combustíveis.

O plano também prevê o fortalecimento da indústria de biogás, a expansão dos biocombustíveis e o estímulo ao mercado internacional de créditos de carbono, buscando ampliar as oportunidades econômicas na transição energética.

Na pauta ambiental e climática, o documento defende que a preservação deve caminhar com o crescimento produtivo, utilizando a regularização fundiária e o Código Florestal para dar segurança no campo. O plano prevê ainda o fortalecimento da Defesa Civil contra eventos extremos.

Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro, candidato à presidência do Brasil pelo PL – Foto oficial da candidatura registrada no TSE

Agenda da energia solar para o próximo governo

Em nota à imprensa, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) disse que o próximo presidente, os governadores estaduais e os parlamentares eleitos terão o desafio de ampliar a segurança e a flexibilidade do sistema elétrico, reduzir o desperdício de energia renovável, atrair investimentos e avançar na universalização do acesso à eletricidade limpa.

A entidade é a favor de consensos e políticas contínuas no setor elétrico. “Independentemente dos resultados eleitorais, a ABSOLAR defende políticas públicas de curto, médio e longo prazos que permitam transformar a abundância de recursos renováveis do Brasil em competitividade, empregos e desenvolvimento econômico”, diz o comunicado.

A associação encaminhou diretrizes aos concorrentes e reforçou o compromisso com o diálogo técnico. “A associação manterá diálogo institucional construtivo com os próximos governos federal e estaduais, o novo Congresso Nacional e as assembleias legislativas, contribuindo com recomendações técnicas e de mercado, baseadas em boas práticas internacionais adaptadas à realidade brasileira”.

Divididas em três programas (Bateria Brasil, Energia que Emprega e Sol para Todos), as diretrizes apresentadas pela ABSOLAR englobam armazenamento de energia, atração de indústrias e ampliação da geração fotovoltaica.

A prioridade inicial é expandir o armazenamento em baterias com leilões anuais de capacidade, maior integração às usinas solares e corte na tributação de baterias (que chega a 84,8%), igualando-a às fontes renováveis. A medida quer conter os cortes na geração renovável, cujas perdas ultrapassaram R$6 bilhões em 2025, aproveitando a sobra de energia em momentos de alta demanda em vez de acionar termelétricas poluentes. A meta é contratar 8 GW de armazenamento até 2030.

Outra frente propõe usar a competitividade da energia limpa para atração de indústrias eletrointensivas, data centers e fábrica de hidrogênio verde, exigindo aperfeiçoamentos no planejamento da transmissão e maior segurança regulatória. A ABSOLAR sugere instalar 18 GW em novas usinas solares até 2030, estimando atrair R$59,4 bilhões em investimentos e criar 500 mil empregos sem necessidade de subsídios.

Por fim, a entidade recomenda universalizar o acesso à eletricidade levando soluções fotovoltaicas a três milhões de unidades até o fim da década (incluindo 500 mil em áreas isoladas) por meio de leilões anuais com no mínimo 50% de fontes limpas, além da troca de 100 mil geradores a diesel por energia solar com baterias, reduzindo a emissão de poluentes e os custos com combustíveis fósseis.

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