Durante muito tempo, o Pop!_OS foi uma das distribuições Linux mais recomendadas da comunidade. A combinação entre uma interface bem acabada, ferramentas próprias e um foco muito claro em produtividade transformou o sistema da System76 em uma referência, principalmente entre usuários intermediários, desenvolvedores e jogadores.

Nos últimos anos, porém, o cenário mudou. A distribuição perdeu parte do protagonismo que tinha conquistado e acabou entrando em uma espécie de compasso de espera. O motivo é bastante conhecido: a decisão da System76 de abandonar o GNOME e investir no desenvolvimento do próprio ambiente gráfico, o COSMIC.

A mudança foi ambiciosa. Em vez de modificar um ambiente já existente, a empresa decidiu criar praticamente tudo do zero, utilizando a linguagem Rust como base. A consequência dessa decisão foi inevitável: o desenvolvimento do Pop!_OS passou a girar quase exclusivamente em torno do COSMIC e esse processo exigiu tempo. Muito tempo.

Há apenas alguns meses, a própria System76 estimava que seriam necessários cerca de 15 meses adicionais para que o ambiente atingisse o nível de refinamento desejado. Considerando que a versão 1.0 do COSMIC foi lançada há apenas sete meses, a impressão era de que ainda estávamos muito longe de uma experiência realmente madura.

Por isso, o ressurgimento do interesse pelo Pop!_OS chamou a atenção. Nas últimas semanas, vídeos, testes e publicações sobre a distribuição voltaram a aparecer com frequência. Afinal, o que mudou para despertar tanta curiosidade?

A resposta passa por uma combinação de melhorias técnicas, amadurecimento do projeto e, curiosamente, um recurso puramente visual.

O COSMIC está evoluindo mais rápido do que muita gente imaginava

Embora sete meses pareçam pouco tempo, a velocidade do desenvolvimento impressiona. Segundo a própria System76, mais de 180 desenvolvedores, entre funcionários e colaboradores da comunidade, participaram da construção do ambiente nos últimos meses. O número é significativo e ajuda a explicar a quantidade de novidades implementadas nesse período.

Boa parte dessas mudanças não aparece em vídeos promocionais nem costuma gerar manchetes. Correções de bugs, otimizações de desempenho, melhorias na estabilidade e ajustes internos dificilmente chamam a atenção do público, mas são justamente esses detalhes que determinam se um ambiente será agradável ou frustrante no uso diário.

Essa evolução pode ser percebida em vários aspectos da interface. O ecossistema de aplicativos próprios, por exemplo, está crescendo. A tendência é que, aos poucos, ferramentas herdadas do GNOME sejam substituídas por aplicações desenvolvidas especificamente para o COSMIC. O novo monitor do sistema é um excelente exemplo disso.

O ecossistema próprio do COSMIC está começando a tomar forma

O monitor do sistema desenvolvido pela System76 já oferece praticamente tudo o que se espera de uma ferramenta desse tipo.

Informações sobre CPU, memória, disco, rede, GPU e processos estão disponíveis em uma única interface. A quantidade de dados pode causar certa estranheza nos primeiros minutos, mas a ferramenta é extremamente completa.

Essa é uma mudança importante porque demonstra uma transição natural do ecossistema. Aos poucos, o COSMIC deixa de depender de aplicativos desenvolvidos para outros ambientes e começa a construir uma identidade própria.

Por que está todo mundo testando o Pop!_OS de novo? 2

Outra novidade interessante é a inclusão das ferramentas de configuração para aplicativos baseados em Qt.

Com isso, programas desenvolvidos para o ecossistema do KDE podem se integrar melhor ao restante da interface. Cores, temas e elementos visuais passam a conversar de forma mais harmoniosa com o ambiente da System76. A consistência visual é um dos fatores que mais influenciam a percepção de qualidade de um sistema operacional.

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Ao mesmo tempo, a comunidade também começou a desempenhar um papel cada vez mais importante.

A comunidade está preenchendo as lacunas do ambiente

Existe hoje um catálogo crescente de aplicativos criados especificamente para o COSMIC. Ferramentas para integração com smartphones, previsão do tempo, autenticação biométrica, câmera e calculadora já estão disponíveis por meio de iniciativas da comunidade. Isso é extremamente positivo.

Projetos saudáveis costumam atrair colaboradores externos, e o aumento da participação da comunidade é um forte indicativo de que o COSMIC está conseguindo despertar interesse. Por outro lado, essa situação também evidencia um problema.

A existência de tantos aplicativos complementares revela que o ambiente ainda não está completamente formado. Algumas funcionalidades consideradas básicas em outros desktops ainda dependem de ferramentas externas ou de aplicações desenvolvidas separadamente.

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Talvez nenhum recurso represente melhor esse momento do COSMIC do que a novidade que levou muita gente a instalar novamente o Pop!_OS. O famoso efeito Frosted Glass.

O blur conquistou a internet outra vez

Painéis translúcidos, menus semitransparentes e janelas com efeito de desfoque não são exatamente uma novidade. O macOS utiliza esse conceito há muitos anos. O Windows também adotou elementos semelhantes a quase 20 anos. Ambientes extremamente populares entre os entusiastas do Linux, como o Hyprland, exploram esse estilo visual com frequência.

Mesmo assim, a implementação realizada pela System76 chamou a atenção. O grande diferencial não é o efeito em si, mas a forma como ele foi integrado. No COSMIC, o usuário pode escolher exatamente onde deseja aplicar o efeito. É possível ativar o recurso nos painéis, nos menus, nos applets e até mesmo nas janelas dos aplicativos.

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Além disso, a intensidade do desfoque e o nível de transparência podem ser ajustados individualmente. O resultado é surpreendentemente elegante, mas existe um motivo mais profundo para o sucesso desse tipo de interface.

A psicologia explica por que gostamos tanto do blur

Nossa percepção visual foi moldada pelo mundo físico. Quando olhamos para um objeto próximo, tudo o que está ao redor tende a perder definição. O cérebro interpreta automaticamente essa diferença de foco para identificar profundidade e separar elementos importantes daqueles que estão em segundo plano.

O psicólogo James Gibson explorou essa ideia em 1979 ao apresentar a teoria das affordances, posteriormente popularizada por Donald Norman. De forma simplificada, essa teoria explica como determinados elementos oferecem pistas intuitivas sobre a maneira como devem ser utilizados.

Uma maçaneta sugere que deve ser girada. Um botão sugere que deve ser pressionado. Uma alça sugere que pode ser segurada.

Nas interfaces digitais, o blur funciona como uma ferramenta capaz de separar camadas visuais e direcionar a atenção do usuário. Ao reduzir os detalhes do plano de fundo, o cérebro consegue identificar mais facilmente o que merece atenção.

Existe também um componente cultural. Empresas como a Apple investiram décadas em pesquisa e design, transformando determinados padrões estéticos em símbolos associados à inovação e à tecnologia premium.

Isso influencia diretamente nossa percepção sobre o que parece moderno. Em outras palavras, o blur não faz sucesso apenas porque é bonito. Ele também dialoga com a forma como interpretamos o mundo.

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O Pop!_OS está pronto para voltar ao topo?

Essa é a pergunta mais importante. Depois de testar a versão mais recente do sistema, fica evidente que o COSMIC está melhor do que há alguns meses. O ambiente está mais estável, os aplicativos estão mais maduros e o acabamento visual evoluiu bastante. Mas isso não significa que o desenvolvimento esteja concluído.

Alguns problemas continuam presentes. Durante os testes, houve falhas relacionadas ao Wi-Fi, que só foram resolvidas após uma atualização realizada por meio da conexão cabeada. Alguns aplicativos também apresentaram travamentos ocasionais.

Nada disso tornou o sistema inutilizável. São problemas pequenos e relativamente fáceis de contornar para usuários mais experientes. Ainda assim, essas situações podem representar um obstáculo significativo para quem está chegando agora ao Linux.

O gerenciador de arquivos, por exemplo, continua simples demais em comparação com alternativas mais consolidadas.

Talvez a conclusão mais justa seja reconhecer que o COSMIC está avançando em um ritmo impressionante, mas ainda não alcançou a maturidade necessária para competir em igualdade com ambientes mais estabelecidos.

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