Desde que o Google anunciou o Manifest v3, em 2019, uma previsão passou a rondar a internet: o “fim dos bloqueadores de anúncios” no Chrome. A mudança na arquitetura das extensões foi recebida com desconfiança por desenvolvedores e usuários, especialmente por limitar APIs consideradas essenciais para ferramentas de privacidade. No entanto, novos dados sugerem que esse funeral foi, no mínimo, precipitado.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade Goethe de Frankfurt indica que, na prática, os bloqueadores de anúncios continuam tão eficazes quanto antes e, em alguns cenários, até um pouco melhores.

O que mudou com o Manifest v3?

O Manifest v3 (MV3) substituiu o antigo Manifest v2 (MV2) como base para extensões no Chrome. O argumento oficial do Google foi melhorar desempenho, segurança e privacidade, reduzindo abusos cometidos por extensões maliciosas.

Entretanto, o ponto mais controverso foi a remoção do modo de bloqueio síncrono da API chrome.webRequest, que permitia interceptar e modificar requisições de rede em tempo real. Essa capacidade era amplamente usada por extensões como uBlock Origin, Adblock Plus e similares para barrar anúncios e rastreadores de forma dinâmica.

No lugar, o Google introduziu a API declarativeNetRequest, que funciona de forma assíncrona e baseada em regras pré-definidas. Menos flexível, porém teoricamente mais eficiente.

Para muitos, isso soou como uma limitação direta aos bloqueadores, especialmente considerando que o modelo de negócios do Google depende fortemente de publicidade.

O que a pesquisa mostrou

O estudo, intitulado Privacy vs. Profit: The Impact of Google’s Manifest Version 3 (MV3) Update on Ad Blocker Effectiveness, foi publicado na revista acadêmica Proceedings on Privacy Enhancing Technologies (PoPETs), com revisão por pares.

Os pesquisadores compararam extensões equivalentes baseadas em MV2 e MV3, utilizando configurações padrão, justamente para refletir o comportamento do usuário comum. O resultado: não houve redução estatisticamente significativa na eficácia do bloqueio de anúncios ou rastreadores.

Mais do que isso, em média, as extensões baseadas em MV3 bloquearam 1,8 rastreadores a mais por site do que suas versões em MV2. Segundo os autores, Karlo Lukic e Lazaros Papadopoulos, isso indica que as limitações impostas pelo MV3 não afetaram, até agora, o objetivo principal dessas extensões.

Para usuários Linux, especialmente aqueles que migraram ou consideraram migrar para navegadores como Firefox apenas para manter suporte ao MV2, a pesquisa traz um dado importante: essa decisão talvez não seja mais necessária.

Papadopoulos afirma que, do ponto de vista da privacidade, não há atualmente uma razão técnica forte para escolher um navegador apenas pela disponibilidade de extensões MV2. As diferenças observadas são, segundo ele, mais cosméticas do que funcionais.

Isso não significa que todas as preocupações desapareceram. O próprio estudo ressalta que os resultados representam um recorte no tempo. Futuras mudanças no Manifest v3, como limites mais rígidos para regras declarativas, ainda podem afetar extensões mais complexas ou menos populares.

O fim não é agora

Curiosamente, o estudo não avaliou aspectos como desempenho, impacto no carregamento de páginas ou consumo de recursos. Também não testou cenários em que extensões precisam lidar com sites pouco acessados, onde limites de regras podem se tornar um problema.

Além disso, desenvolvedores continuam criticando a lentidão do Google em melhorar APIs prometidas, bem como a fiscalização inconsistente da Chrome Web Store, que ainda sofre com extensões maliciosas.

Há avanços recentes, como páginas de publicadores, uploads verificados e regras mais duras contra o sequestro de links afiliados, mas o ecossistema ainda está longe do ideal.

Apesar de anos de polêmica, o dado mais importante é simples: o bloqueio de anúncios segue vivo e funcional. Pelo menos por enquanto, o Manifest v3 não entregou o golpe fatal que muitos temiam.

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