No mesmo mundo open source dominado por Linux, BSD e tantas variantes, um projeto segue uma jornada singular e teimosamente ambiciosa há três décadas. O ReactOS, um sistema operacional de código aberto que visa recriar o Windows NT do zero, celebra em 22 de janeiro de 2026 seu 30º aniversário desde o primeiro commit. Sua missão, inalterada desde o início, é tão clara quanto monumental: permitir que aplicativos e drivers do Windows rodem nativamente em um ambiente livre, transparente e independente da Microsoft.
Diferente de emuladores ou camadas de compatibilidade, como o Wine, com o qual compartilha sinergias, o ReactOS busca a compatibilidade binária no nível do sistema. Isso significa reimplementar, em “sala limpa”, os componentes centrais do Windows NT: o kernel, as bibliotecas do sistema (como NTDLL, USER32, GDI32) e a infraestrutura de drivers. O objetivo final é um sistema que se comporte como o Windows onde importa, mas cujo código-fonte qualquer um possa inspecionar, modificar e distribuir.
Uma jornada de três décadas
A história do ReactOS é um testemunho de persistência frente a desafios imensos.
Os primórdios (1996-2003)
Nascido das cinzas do projeto FreeWin95, que paralisou em planejamento excessivo, o ReactOS renasceu sob a liderança de Jason Filby mirando a arquitetura mais robusta do NT. Os primeiros anos foram de construção lenta e meticulosa dos alicerces. Em 2003, o ReactOS 0.1.0 finalmente conseguia inicializar a partir de um CD, ainda que apenas em modo texto.
Aceleração e adversidades (2003-2006)
A série 0.2.x trouxe progresso rápido: uma interface gráfica básica, maior estabilidade e crescente interesse público. No entanto, em 2006, temores sobre a possível contaminação do código por fontes vazadas da Microsoft levaram a uma auditoria de propriedade intelectual exaustiva e a um congelamento de contribuições, um golpe que desacelerou o projeto por anos.

A longa marcha (2006-2016):
A série 0.3.x, que durou cerca de uma década, consolidou o sistema. Foram marcos importantes o início do suporte a 64 bits (x86_64), a adoção do driver UniATA (que permitiu uso de discos SATA) e a capacidade de ser compilado pelo MSVC da Microsoft.

Maturação contínua (2016-hoje)
A série 0.4.x, iniciada em 2016, introduziu um shell gráfico mais parecido com o Windows XP, assim como o suporte à depuração com ferramentas padrão da Microsoft, como o WinDbg. A versão atual, 0.4.15, mostra um desktop funcional, embora ainda distante da compatibilidade total com softwares modernos. O suporte a 64 bits já existe, mas a falta do subsistema WoW64 impede a execução de aplicativos de 32 bits nessa arquitetura.

Modernização e desafios
O caminho à frente é tão desafiador quanto o percorrido. A equipe do ReactOS trabalha em projetos vitais para sua relevância contemporânea, como:
- Suporte a UEFI Classe 3 (o padrão moderno de inicialização);
- ASLR (Address Space Layout Randomization) para segurança;
- Suporte a múltiplos processadores (SMP);
- Novos drivers para NTFS e ATA;
- O Santo Graal: suporte a drivers de GPU modernos baseados no modelo WDDM da Microsoft, essencial para qualquer uso gráfico atual.
Com mais de 88 mil commits, 300 contribuidores únicos e quase 15 milhões de linhas de código, o ReactOS é um monumento à dedicação da comunidade open source. Ele nunca alcançou a popularidade do Linux, e sua utilidade prática ainda é limitada, principalmente como sistema de produção. No entanto, seu valor transcende a praticidade imediata.
O ReactOS permanece como um projeto-farol de princípios: um exercício de engenharia reversa em escala épica, uma salvaguarda contra a obsolescência imposta por ecossistemas fechados e uma prova de que, mesmo as missões mais difíceis, podem reunir pessoas em torno de uma ideia por 30 anos. Parabéns, ReactOS. Que venham os próximos 30.
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