A Amazon mostrou as cartas do seu plano nuclear: ajudar a erguer um dos primeiros complexos de SMRs (small modular reactors) dos Estados Unidos para abastecer, com eletricidade livre de carbono, tanto a própria operação (incluindo IA e nuvem) quanto a rede local. O projeto, batizado de Cascade Advanced Energy Facility, ficará nos arredores de Richland, Washington, em parceria com a Energy Northwest e usando o reator Xe-100 da X-energy, uma startup na qual a Amazon investiu no ano passado (US$ 500 milhões).
O que está sendo proposto
A fase inicial prevê quatro unidades (80 MW cada) somando 320 MW; o plano completo fala em até 12 reatores, totalizando 960 MW. Energia suficiente, em tese, para algo como 770 mil residências nos EUA. A Amazon destaca três promessas dos SMRs: pegada menor (o complexo ocuparia “alguns quarteirões”, e não mais de um quilômetro quadrado), implantação mais rápida e custos operacionais inferiores aos de reatores convencionais de água pressurizada.
A ambição, porém, vem com pés no chão: as obras só devem começar no fim da década e a operação ficaria para os anos 2030. Além de licenciamento junto à NRC (Nuclear Regulatory Commission), ainda faltam comprovações industriais e comerciais em escala, uma pedra no caminho de SMRs anteriores, que sofreram com custos acima do previsto.
Mesmo assim, a empresa mantém o roteiro: 5 GW de SMRs até 2039 (somando projetos e fornecedores), parte de uma estratégia mais ampla para garantir energia estável e de baixo carbono frente ao apetite de data centers de IA. Para comparação, o supercomputador Colossus (xAI) com 200 mil GPUs consumiria ~300 MW a plena carga; o Cascade, completo, seria mais de três vezes isso.
Quem está no consórcio
Além da Energy Northwest e da X-energy, Doosan Enerbility e KHNP (Korea Hydro & Nuclear Power) foram acionadas para acelerar a cadeia de fornecimento. A Amazon alega que esse arranjo encurta os prazos de fabricação dos módulos nucleares, um dos calcanhares de Aquiles da promessa do SMR.
Ao mesmo tempo, a companhia não depende apenas do “futuro SMR”, pois já comprou os data centers atômicos da Cumulus Data ao lado da usina Susquehanna (2,5 GW), na Pensilvânia, em um negócio de US$ 650 milhões.
Segundo a Amazon, o Cascade criará 1.000+ vagas na construção e ~100 empregos permanentes. No discurso de sustentabilidade, os SMRs aparecem como “energia estável” (24/7) para ancorar a expansão de IA e nuvem sem elevar emissões. O efeito político é duplo: despressuriza redes regionais (cada vez mais tensionadas por hiperescaladores) e ajuda a empresa a tangibilizar metas climáticas.
O tabuleiro mais amplo
A Amazon não está sozinha. Oracle acena com três SMRs para um complexo de 1 GW; a Kairos Power, com apoio do Google, atua em Oak Ridge (Tennessee) com um reator de sal fundido de 50 MW, o Hermes 2, com aprovação da NRC para construir, mas ainda dependente de autorização para operar. Em paralelo, a Microsoft ajuda a reativar o Three Mile Island Unidade 1 (não é a unidade do acidente de 1979), com previsão de conclusão em 2027.
Enquanto isso, a demanda explode: projeções falam em +22% de consumo de energia por hiperescaladores nos EUA até o fim de 2025. É o choque de realidade da IA generativa, onde modelos gigantescos requerem muita energia.Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter!