O mercado de design gráfico e edição de imagens pode estar prestes a passar por uma das maiores revoluções de sua história. Recentemente, o Google lançou seu mais novo modelo de IA para manipulação de imagens, batizado de Nano Banana, e a comunidade de design simplesmente enlouqueceu. A especulação foi imediata: os bolsos da Adobe começariam a pegar fogo? Pela primeira vez em décadas, surge um concorrente que parece, em tese, capaz de desafiar a hegemonia do Photoshop em seu próprio território.
Mas o que exatamente o Nano Banana tem de tão especial? Em resumo, ele representa um salto significativo na capacidade das inteligências artificiais de entender e manipular imagens de forma não destrutiva e contextualmente inteligente. Diferente de muitas IAs generativas que criam artefatos estranhos ou “quebram” a imagem original, o Nano Banana promete realizar montagens e manipulações complexas mantendo a coerência visual, algo essencial para o trabalho profissional com fotografias.
Mergulhamos a fundo no Google AI Studio para testar essa ferramenta que está causando frisson. Este artigo é um relato das nossas impressões: dos resultados incríveis que obtivemos aos momentos em que a IA mostrou suas limitações. Será que o Nano Banana é realmente a bala de prata que vai libertar os designers da assinatura mensal da Adobe para uma assinatura mensal do Google? Vamos descobrir juntos.
Por que o Nano Banana é diferente?
Antes de analisar os testes, vamos entender o que coloca o Nano Banana em uma posição de destaque. O modelo não apenas gera imagens do zero, mas edita e manipula imagens existentes com um entendimento contextual avançado.
Ele consegue:
- Remover objetos reconstruindo o fundo de maneira plausível;
- Alterar cores e texturas de elementos específicos sem afetar o resto da imagem;
- Substituir objetos mantendo a iluminação e a perspectiva da cena original;
- Expandir imagens preenchendo áreas faltantes de forma coerente.
Além disso, o Nano Banana ostenta uma excelente pontuação no LM Arena para modelos de edição de imagem, sendo um dos mais rápidos do mercado. Velocidade é um fator crítico; ninguém quer esperar minutos por um resultado que pode não ser o esperado. A agilidade do Nano Banana permite um fluxo de trabalho iterativo e experimental, similar ao que designers estão acostumados em softwares tradicionais.

Teste prático 1: redecorando uma sala
Para avaliar o Nano Banana em um contexto realista, começamos com uma foto de uma sala comum, com livros no chão, uma cadeira, quadros na parede e alguns móveis. O objetivo era simular as tarefas que alguém faria em um editor como o Photoshop.
“Remova os livros do chão.”

Impecável. O Nano Banana não apenas removeu os livros, mas reconstruiu perfeitamente o padrão do tapete de madeira onde eles estavam. A transição foi tão bem-feita que é impossível dizer que havia algo ali antes.
“Mude a cor da parede para um azul semelhante ao das gavetas do centro.”

Muito bom. O modelo demonstrou compreensão contextual, identificando corretamente as “gavetas do centro” e aplicando um tom de azul harmonioso. A cor da parede foi alterada sem afetar os objetos em primeiro plano, mostrando um recorte inteligente.
“Substitua a cadeira por uma poltrona azul.”

Surpreendente. A IA não apenas colocou uma poltrona azul no lugar, mas manteve o estilo das pernas de madeira da cadeira original, integrando o novo objeto à cena de forma natural.
“Substitua a planta da esquerda por um abajur.”

Criativo, mas com pequenos erros. O Nano Banana adicionou o abajur e, notavelmente, incluiu uma tomada na parede – um detalhe de coerência impressionante. No entanto, o fio elétrico não conecta-se perfeitamente ao abajur.
“Ligue a luz da luminária pequena em cima do móvel.”

Bom. A IA criou um efeito de iluminação realista saindo da luminária, aquecendo a área ao seu redor.
“Troque o tom da madeira do móvel para um mais escuro.”

Excelente. A textura e o veio da madeira foram preservados, apenas escurecidos conforme solicitado.
“Adicione uma pessoa lendo um livro sentada na poltrona.”

Aceitável. A posição da pessoa é natural e orgânica. As mãos segurando o livro estão longe da perfeição (o eterno desafio das IAs), mas passariam em uma olhada rápida.
“Substitua o tapete do chão por um tapete persa.”

Impressionante. O modelo entendeu o padrão característico de um “tapete persa” e o integrou perfeitamente na perspectiva da sala, encaixando-o sob os móveis.
A sequência demonstra um grande poder para montagens rápidas. A capacidade de fazer edições complexas cumulativamente, uma sobre a outra, sem que a imagem se degrade completamente, é um marco tecnológico. É uma ferramenta fantástica para mockups, pré-visualizações de decoração ou concept art.
Teste prático 2: criatividade e limitações
Venturamos em territórios mais complexos para testar os limites do modelo.
Pedimos ao Nano Banana para criar uma thumbnail para um vídeo sobre Linux Mint, usando uma imagem base e instruções específicas (cores, texto, efeitos de iluminação).

Mediano. A thumbnail gerada tinha a essência do pedido – o tom verde, o texto –, mas o layout era amadorístico e os efeitos de iluminação, genéricos. Ficou evidente que para peças que exigem um olhar de design apurado, a IA ainda não substitui um profissional. Tentativas de corrigir detalhes, como remover um tom de verde indesejado de um laptop, levaram a resultados bizarros, com artefatos visuais e distorções faciais.
Modificação de expressões faciais: Este foi um dos testes mais impressionantes. Ao pedir para modificar a expressão facial do Dio em uma foto para “zangado”, o Nano Banana entregou um resultado extremamente convincente. As características faciais foram mantidas, mas a expressão foi alterada de forma realista e orgânica, algo muito difícil de fazer até mesmo no Photoshop.

Solicitamos o Dio zangado fosse colocado em uma praia.

Misto. O recorte da pessoa contra o fundo original foi perfeito, preservando detalhes complexos como a tela mesh vazada de uma cadeira. No entanto, a integração com o novo cenário foi um tanto artificial.
Ao pedir para “modificar a roupa para roupas de praia”, a IA simplesmente vestiu o Dio com uma roupa engraçada.

Composição de cena a partir de múltiplas imagens: Aqui, o desafio era grande. Fornecemos três fotos diferentes (com iluminação e ângulos distintos) de objetos como cadeiras, uma luminária, um laptop e um smartphone, e pedimos para criar uma cena coesa.

Notável pela complexidade. O Nano Banana identificou os objetos e os reuniu em um único cenário, criando uma sala com uma parede de tijolos, a luminária no lugar certo e os dispositivos sobre uma mesa. A iluminação final ficou um pouco estranha, mas a simples capacidade de realizar essa tarefa é surpreendente.

Preenchimento contextual (Outpainting): Assim como a famosa ferramenta “Generative Fill” da Adobe, testamos a capacidade do Nano Banana de expandir uma foto, imaginando o que haveria ao redor.

Excelente. Ao usar uma foto de um setup, a IA preencheu o resto do quarto com estantes, itens de decoração e até manteve a padronização do teclado. O resultado foi coerente e útil, embora com pequenos defeitos que precisariam de ajustes pontuais.
Vale também citar o trabalho muito bem feito em deixar o Dio com cabelo azul e a barba mais longa. Porém, pedimos para ele colocar uma “touca” no dedo e ele acabou colocando uma luva completa.

O Nano Banana é uma ameaça real ao Photoshop?
Para ter uma perspectiva profissional, conversamos com o Adriel, designer da nossa equipe, que também testou a ferramenta.
“Hoje em dia, faz muito sentido colocar a IA no seu fluxo de trabalho, mas não ficar refém somente dela”, comenta Adriel. “Utilizo ferramentas como a suíte Affinity para desenvolver materiais, e a IA entra para resolver necessidades específicas, como gerar um elemento rápido ou fazer upscale de imagens. Isso faz total diferença no processo de criação, acelerando etapas.”
No entanto, Adriel ressalta um ponto fundamental: a falta do “fator humano”. “A IA sempre vai ter um ponto onde perde. Você consegue observar um certo padrão nas criações, ela acaba reciclando informações. O resultado do Nano Banana me impressionou, mas para uso profissional, sempre precisei fazer um retoque final, vetorizar algo, mexer nos detalhes. Dificilmente algo sai 100% pronto.”
Sobre a questão central, a ameaça à Adobe, a realidade é matizada. O Photoshop não vai perder seu trono tão cedo. Ele continua sendo uma ferramenta incrivelmente sólida e completa. No entanto, o panorama competitivo está mudando. Há alguns anos, a Adobe praticamente não tinha concorrentes sérios. Hoje, existe o Canva (com forte penetração no mercado de marketing digital), as ferramentas da Affinity (que ganham popularidade a cada dia) e, agora, modelos de IA como o Nano Banana que podem ser integrados a outras plataformas.
Integração é a chave
É importante notar que o Nano Banana não foi concebido para ser usado apenas em um chat. Seu poder real está na integração com outros softwares via API. E isso já está acontecendo no mundo open-source. Um plugin chamado Dream Prompter está trazendo o poder do Nano Banana para dentro do GIMP, o famoso editor de imagens gratuito e de código aberto.
Claro, usar o modelo do Google dessa forma tem um custo (cerca de US$ 0,039 por imagem gerada), mas democratiza o acesso a uma tecnologia de ponta sem a necessidade de uma assinatura caríssima. A batalha do futuro não será necessariamente entre softwares, mas entre quem terá os melhores modelos de IA integrados de forma mais intuitiva e poderosa.
Enquanto a Adobe corre para implementar suas próprias IAs no Photoshop, modelos open-source como o Qwen Image Edit também evoluem rapidamente. Pela primeira vez em décadas, a dianteira da Adobe não parece mais intocável.
Uma ferramenta poderosa em evolução
O Google Nano Banana é, sem sombra de dúvidas, uma das ferramentas de IA mais impressionantes que testamos. Sua capacidade de manipular imagens existentes com compreensão contextual é um marco tecnológico que trará impactos profundos no fluxo de trabalho de designers, fotógrafos e criativos em geral.
Ele é excepcional para tarefas objetivas: remoção de objetos, alteração de cores, substituição de elementos e expansão de imagens. É uma ferramenta fantástica para brainstorming, criação de conceitos e prototipagem rápida.
No entanto, ele não é um substituto para o olhar crítico e a intenção criativa de um designer humano. Trabalhos que exigem nuance, composição elaborada e um controle pixel-a-pixel ainda dependem de ferramentas tradicionais e, principalmente, do profissional que as opera.
A ameaça à Adobe não é de extinção, mas de perda de hegemonia. O mercado está se diversificando, e a escolha do criativo nunca foi tão grande. O Nano Banana não é o prego no caixão do Photoshop, mas é sem dúvida um dos martelos mais pesados já levantados contra o monopólio silencioso que a Adobe mantinha sobre a criação digital. O futuro do design será híbrido: uma simbiose poderosa entre a intuição humana e a potência da inteligência artificial. E o Nano Banana pode estar garantindo seu lugar nessa equação.
Está ocorrendo uma mudança grave no panorama da IA e várias ferramentas podem deixar de existir em pouco tempo. Por que será que a IA está falhando em tomar nossos empregos?