Recebemos um dispositivo que, à primeira vista, promete ser mais um competidor interessante no vasto ecossistema de Single-Board Computers (SBCs): o Armson Forge1. Com um design que lembra inegavelmente um Raspberry Pi, mas com uma proposta focada em Internet das Coisas (IoT) e aplicações industriais, esta pequena placa chegou para ser testada, oferecendo uma longa e complexa jornada, onde coçamos muito a cabeça e chegamos tão longe quanto o lugar de onde partimos.
Unboxing e primeiras impressões
O unboxing do Forge1 é simples. Dentro da caixa, vem basicamente a placa. Seu formato compacto e a presença de uma variedade de conectores GPIO imediatamente chamam a atenção para seu potencial em projetos embarcados. Ele conta com dois conectores Ethernet Gigabit, sugerindo uma vocação para dispositivos de rede. A alimentação pode ser feita via conector barrel jack ou por uma porta USB-C lateral, que acompanha uma única porta USB-A e uma saída de áudio.

Na parte inferior, um slot para cartão microSD serve como o único meio de armazenamento bootável, já que a placa vem com apenas 512MB de RAM e 512MB de armazenamento interno – configurações que deixam claro seu foco em tarefas específicas e leves, longe de ser um mini desktop.
Software e documentação
O maior obstáculo começa quando partimos para a prática. O site da Armson oferece como único sistema operacional uma imagem baseada em Buildroot, um framework para construir sistemas Linux embarcados. O arquivo de 68 MB é rapidamente gravado em um cartão microSD, mas é aqui que o caminho escurece.

A imagem fornecida não vem com uma documentação clara sobre como acessar o dispositivo. O Forge1 não possui saída de vídeo, então o acesso remoto via SSH é a única opção. O manual online menciona brevemente que o dispositivo deve oferecer um IP via DHCP para ser acessível, possivelmente com o hostname armson-w3.local. No entanto, após inúmeras tentativas com scanners de rede como o Angry IP Scanner, o dispositivo simplesmente não se anuncia na rede.

Testamos todas as possibilidades: IPs comuns na faixa DHCP, tentativas de login com usuários como root e armson com senhas comuns como “1234” ou vazias. Nada funcionou. O dispositivo não respondia a pings e não aparecia na lista de clientes do roteador. Até mesmo a troca da fonte de alimentação do USB-C para uma fonte dedicada foi realizada, sem sucesso.
Sem conseguir fazer a imagem oficial funcionar, partimos para uma busca por sistemas alternativos. Será que um Ubuntu ou Armbian minimalista rodaria no Forge1? O coração da placa é um SoC Rockchip RK3506J, um processador ainda pouco comum no mundo dos SBCs para consumidores.
Uma busca minuciosa nos repositórios do Ubuntu para Rockchip e no projeto Armbian revelou uma dura realidade: não há imagens pré-compiladas para o RK3506J. Existem versões para outros SoCs da Armson, como o RK3528, mas tentar flashear uma imagem incompatível é uma receita para brickar o dispositivo. Sem uma comunidade ativa ou um repositório de terceiros, o Forge1 se mostrou uma ilha isolada no mundo open source.
Um dispositivo para um público muito específico
A experiência com o Armson Forge1 foi, acima de tudo, um aprendizado sobre o mercado de SBCs industriais. Pode ter faltado expertise de nossa parte, mas parece que este não é um dispositivo ideal para hobbyistas ou entusiastas que querem rodar um servidorzinho em casa. Ele é uma ferramenta para empresas ou desenvolvedores embarcados mais avançados, que:
- Possuem contrato direto com a Armson: É provável que clientes industriais recebam suporte técnico, documentação detalhada e talvez até imagens de sistema personalizadas que não estão publicamente disponíveis.
- Dominam o Buildroot: Parece que o caminho pretendido é que você baixe o código-fonte do Buildroot e compile seu próprio sistema Linux sob medida, adicionando apenas os pacotes necessários para sua aplicação específica.
- Não precisam de conveniência: A ausência de saída de vídeo, a falta de uma imagem “pronta para usar” e a escassez de documentação pública são trade-offs aceitáveis em um ambiente controlado onde o dispositivo será implantado em centenas de unidades para uma única tarefa.
Para nós, que recebemos a placa para um review geral, o Forge1 foi uma caixa-preta. Ele serve como um alerta para quem busca SBCs: nem todos são feitos para a comunidade maker. Alguns são produtos para usuários mais avançados, cujo valor está na personalização e na robustez, não na acessibilidade. O Forge1 parece ser excelente em seu nicho, mas esse nicho é, infelizmente, de difícil acesso para o usuário comum.
Se você está criando seu primeiro servidor, saiba que para começar e aprender, basta ter um computador qualquer (talvez, até mesmo um celular!) e seguir algumas dicas simples!