A indústria global de semicondutores, já famosa pela sua complexidade e sensibilidade estratégica, enfrenta mais um capítulo decisivo moldado por tensões geopolíticas. A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), a maior fundição de chips do mundo, está tomando medidas drásticas para garantir que a sua próxima geração de tecnologia de 2 nanômetros (nm) permaneça isolada de controvérsias internacionais. Segundo relatos publicados pelo Digitimes e pelo Nikkei Asia, a empresa decidiu excluir totalmente equipamentos de origem chinesa das suas novas linhas de produção.
A decisão surge num momento em que os legisladores norte-americanos avançam com a proposta da Chip EQUIP Act, uma lei que proíbe empresas que recebem subsídios dos EUA de adquirirem equipamentos de “entidades estrangeiras de risco”, categoria que inclui firmas chinesas como a AMEC e a Mattson Technology.
Uma transição tecnológica e geopolítica
O processo de 2 nm, conhecido como N2, vai além da miniaturização de transistores. É um marco tecnológico central para a TSMC, pois será a primeira tecnologia da empresa a implementar transistores Gate-All-Around (GAA), a primeira mudança estrutural significativa na indústria desde a adoção dos FinFETs ao final dos anos 2000. Espera-se que ofereça ganhos de desempenho entre 10% a 15% e uma redução no consumo de energia na ordem dos 25% a 30%.
Com tanto em jogo, a TSMC não pode correr riscos. A empresa depende do acesso ao mercado norte-americano e de subsídios federais para a sua expansão global, incluindo a sua nova fábrica no Arizona. Ao qualificar somente equipamentos japoneses, americanos e europeus para as suas linhas de 2nm em Hsinchu e Kaohsiung, a TSMC adota uma postura pró-ativa perante as restrições dos EUA e envia um sinal aos seus clientes mais importantes, como a Apple e a Nvidia, de que a sua produção de ponta está protegida de interrupções de natureza política.
Dois coelhos com uma cajadada
A exclusão de fabricantes chineses é, contudo, apenas metade da história. O relato do Digitimes adiciona uma camada adicional de complexidade, revelando que a TSMC iniciou uma auditoria abrangente aos seus fornecedores taiwaneses de equipamentos e materiais. O foco desta avaliação são duas métricas críticas: as margens de lucro e a exposição comercial à China.
Fornecedores com margens brutas significativamente superiores ao benchmark de ~58% da própria TSMC, ou aqueles que dependem fortemente de vendas para o mercado chinês, enfrentam a possibilidade real de serem excluídos da lista de fornecedores aprovados para 2026. O Digitimes indica que algumas empresas já perderam encomendas. Esta estratégia revela um cálculo astuto por parte da TSMC: a empresa está aproveitando o momento geopolítico para consolidar a sua alavancagem sobre a cadeia de fornecedores, impondo disciplina de margens e reduzindo perfis de risco.
O realinhamento estratégico
No seu conjunto, estas ações pintam um quadro de um realinhamento estratégico da cadeia de abastecimento em duas frentes distintas. Num movimento, a TSMC corta laços com ferramentas chinesas para se antecipar às restrições de Washington. Noutro, utiliza o memso ímpeto para remodelar a sua cadeia de fornecedores local, privilegiando parceiros que se alinham com a sua estratégia tecnológica, assim como com os seus imperativos financeiros e geopolíticos.
Este duplo movimento sinaliza que a “desacoplagem” não é motivada inteiramente por política. É também uma manobra de negócio para fortalecer a posição dominante da TSMC e proteger a sua lucratividade. O risco inerente é que algumas empresas taiwanesas, pressionadas pela TSMC, possam optar por se voltar ainda mais para o mercado chinês, aprofundando precisamente a divisão geopolítica que a TSMC pretende gerir.
A corrida para os 2 nm está, assim, sendo moldada por um triângulo de forças: a física dos transistores, a economia dos lucros e a pressão da política internacional. O resultado para o consumidor deverá ser o mesmo: chips mais rápidos e eficientes chegarão ao mercado conforme planejado. No entanto, a cadeia de abastecimento que os produz torna-se mais estreita, mais cara e circunscrita a um grupo cada vez menor de atores politicamente aceitáveis, redefinindo o panorama da indústria para os anos vindouros.Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter!