O anúncio, em janeiro de 2025, de que o projeto KDE desenvolveria sua própria distribuição Linux oficial foi recebido com uma mistura de euforia e curiosidade pela comunidade. Afinal, o que acontece quando uma das maiores e mais influentes comunidades de desktop do mundo livre resolve entrar no já saturado mercado de distros? Agora, cerca de oito meses depois, as primeiras imagens de teste do KDE Linux começam a surgir, e nós mergulhamos de cabeça para descobrir o que há por trás do hype.

Muito mais que um Plasma empacotado

Antes de qualquer coisa, é importante entender a ambição por trás do projeto. O KDE Linux não é simplesmente uma nova distribuição que usa o Plasma como ambiente padrão. Existem dezenas delas, openSUSE ao KDE Neon.

O objetivo declarado do projeto é criar a presença oficial do KDE no mercado de sistemas operacionais. É sobre ter um produto de ponta a ponta, onde o projeto tem controle total sobre a base do sistema, a experiência de atualização, a curadoria de software e, é claro, o refinamento da interface. É uma tentativa de oferecer uma visão completa e integrada, sem as camadas de interpretação e as escolhas, por vezes conflitantes, das distribuições terceiras.

Tecnicamente, o KDE Linux se propõe a ser um sistema de base imutável, seguindo uma das tendências mais fortes no mundo Linux moderno. Nesse modelo, os arquivos críticos do sistema operacional são mantidos em um estado somente leitura. Isso traz benefícios enormes em termos de estabilidade e confiabilidade: é virtualmente impossível quebrar o sistema com uma instalação malfeita ou um comando errado, e as atualizações (e rollbacks em caso de falha) tornam-se operações atômicas e seguras.

A realidade pré-alpha

Baixar e testar uma build do KDE Linux hoje é uma aventura para entusiastas e desenvolvedores, não para usuários finais. O estágio é pré-alpha, o que, no ciclo de desenvolvimento de software, é onde as ideias básicas são implementadas e os bugs mais fundamentais são descobertos.

Em nossos testes em diferentes hardwares, incluindo um laptop da System76 com Coreboot e um Thinkpad mais tradicional, a experiência foi praticamente a mesma: instabilidade gráfica severa. O Plasmashell (o coração da interface Plasma) crashava repetidamente, resultando em telas piscantes, painéis que não carregavam e uma experiência geralmente frustrante.

Testamos o KDE Linux pre-alpha uma distro imutável com base Arch (1)

É importante enfatizar: isto não é uma crítica, mas uma constatação da realidade do desenvolvimento. Testamos builds de dias diferentes, e todas exibiram problemas similares, sugerindo que os desenvolvedores estão lidando com um bug de fundo que afeta uma gama ampla de hardware.

Testamos o KDE Linux pre-alpha uma distro imutável com base Arch (4)

Em uma máquina virtual, conseguimos acesso parcial através do KRunner (o lançador de aplicativos) para espiar a estrutura do sistema, mas a usabilidade prática ainda está longe.

Uma visão do futuro do KDE Linux

Apesar dos problemas gráficos, foi possível analisar alguns dos pilares técnicos que estão sendo construídos. A escolha da base é o Arch Linux, mas a semelhança termina aí. O KDE Linux não usa o pacman como gerenciador de pacotes tradicional.

Testamos o KDE Linux pre-alpha uma distro imutável com base Arch (5)

O coração do sistema é seu modelo de entrega e instalação de software. A instalação de aplicativos é feita quase que exclusivamente via containers. O suporte ao Flatpak vem habilitado por padrão, com o Flathub configurado como fonte principal. Curiosamente, a loja de aplicativos Discover já exibe cada pacote com seu repositório de origem, uma transparência que usuários avançados vão apreciar.

Testamos o KDE Linux pre-alpha uma distro imutável com base Arch (6)

O suporte ao Snap da Canonical também está presente, embora mais rudimentar. É possível instalar snaps via terminal, mas a integração ainda não chegou à interface gráfica da Discover.

As atualizações do sistema em si são gerenciadas pelo comando updatectl update. Como é típico em sistemas imutáveis, ele baixa e aplica uma nova imagem completa do sistema. No momento, ainda não há suporte a atualizações delta (que baixam apenas as diferenças), o que significa que cada update pode ser um download considerável.

Testamos o KDE Linux pre-alpha uma distro imutável com base Arch (3)

A estrutura do sistema de arquivos revela a filosofia imutável. A raiz do sistema (/) é radicalmente diferente de uma distribuição tradicional, organizada para separar claramente o que é imutável (o sistema operacional) do que é mutável (dados do usuário e aplicativos). A pasta @snap é um indicador claro do suporte à tecnologia de containers do Ubuntu. O sistema de arquivos BTRFS é usado por debaixo dos panos, proporcionando a base para funcionalidades avançadas como snapshots e rollbacks instantâneos.

Testamos o KDE Linux pre-alpha uma distro imutável com base Arch (2)

Muitos aplicativos do próprio ecossistema KDE, como o Dolphin (gerenciador de arquivos), ainda são executados como Flatpaks em versões nightly (de desenvolvimento), mostrando que a transição para este novo modelo continua em andamento.

Desafios e limitações inerentes ao design

A arquitetura escolhida para o KDE Linux traz consigo um conjunto inevitável de limitações. Por ser um sistema imutável, qualquer software que precise instalar módulos no kernel Linux, como drivers proprietários da NVIDIA, softwares de virtualização como VirtualBox ou até mesmo alguns drivers de hardware mais obscuros, simplesmente não funcionará da maneira tradicional.

Esta é uma barreira significativa para uma parcela considerável de usuários. Enquanto a comunidade trabalha para empacotar mais drivers e softwares críticos como Flatpaks ou Snaps, essa incompatibilidade será um ponto de atrito. O Secure Boot, uma feature de segurança crítica para muitos ambientes corporativos, também ainda não é suportado.

A lista de bugs conhecidos no GitLab do projeto é longa e abrange desde problemas de instalação até falhas em componentes core do Plasma. É um lembrete saudável de que ainda há um longo caminho a percorrer.

Paciência é uma virtude

Após este primeiro contato, fica a sensação de que o KDE Linux é um projeto com uma visão ambiciosa e sólida, mas que ainda está engatinhando. A expectativa de que, em oito meses, teríamos algo mais usável talvez tenha sido otimista demais. Montar uma distribuição do zero, mesmo baseada no Arch, é um trabalho hercúleo, especialmente com uma arquitetura complexa como a de base imutável.

A grande pergunta que fica não é se o KDE Linux será uma distribuição viável, mas quando. Ele entrará em um campo já ocupado por gigantes consolidados como o Fedora Kinoite e o Bazzite, que já oferecem experiências imutáveis estáveis e polidas.

O projeto KDE tem a vantagem de controlar toda a stack do usuário, do kernel à interface, o que potencialmente pode resultar na experiência mais coesa e integrada já vista no mundo Linux. No entanto, o caminho até lá é longo e cheio de desafios técnicos.

Para agora, a recomendação é clara: evite essas builds de teste, a menos que você seja um desenvolvedor ou um tester disposto a lidar com quebras constantes. Para o usuário final, a espera continuará. Mas a promessa de um sistema operacional verdadeiramente moderno, estável e centrado no usuário, direto dos criadores de uma das melhores interfaces desktop do mundo, é uma esperança que vale a pena cultivar.

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