No mundo atual, dominado por Android e iOS, é difícil imaginar que outro sistema operacional já foi o rei incontestável dos smartphones. O Symbian não apenas existiu, como foi pioneiro, equipando mais de 200 milhões de dispositivos em seu auge. Hoje, seu código-fonte está disponível gratuitamente no GitHub, mas quase ninguém se importa.
Como um sistema que já liderou o mercado global de smartphones acabou relegado ao esquecimento? E por que, apesar de seu legado técnico impressionante, ele nunca foi revivido pela comunidade? Esta é a história do Symbian: sua ascensão, sua queda e seu estranho pós-vida digital.
Do EPOC ao domínio global
O Symbian não surgiu do nada. Suas raízes estão no EPOC, um sistema operacional desenvolvido pela Psion, uma empresa britânica especializada em PDAs. Nos anos 1990, a Psion percebeu que o futuro dos dispositivos móveis não estava em agendas eletrônicas isoladas, mas em aparelhos que combinassem computação e comunicação.
Em 1998, a Psion uniu-se a gigantes da telefonia como Nokia, Ericsson e Motorola para criar a Symbian Ltd., uma joint venture destinada a desenvolver um sistema operacional moderno para dispositivos móveis. O resultado foi o Symbian OS, construído em C++ e baseado em um microkernel em tempo real (EKA2), uma arquitetura que permitia rodar tanto aplicativos convencionais quanto o software crítico de telefonia no mesmo hardware, algo revolucionário para a época.
Enquanto a Microsoft tentava emplacar o Windows Mobile, um sistema pesado e pouco otimizado, e a Apple ainda não havia revelado o iPhone, o Symbian se tornou a base de dispositivos icônicos como o Nokia Communicator, o Sony Ericsson P800 e o Nokia N95. No final dos anos 2000, ele era o sistema operacional móvel mais usado no mundo, presente em mais de 60% dos smartphones globais.
O Symbian era tecnicamente superior a muitas de suas alternativas. Seu kernel EKA2 era extremamente eficiente, permitindo multitarefa real mesmo em dispositivos com pouca memória RAM. Além disso, seu modelo de desenvolvimento baseado em plugins permitia que fabricantes personalizassem a interface sem modificar o núcleo do sistema.
No entanto, três problemas estratégicos minariam seu futuro:
Fragmentação e interfaces inconsistentes
A Nokia, a Sony Ericsson e outras fabricantes criaram suas próprias interfaces para o Symbian, como:
- S60 da Nokia, focado em teclados físicos;
- UIQ da Sony Ericsson, com suporte a touchscreen;
- MOAP, usado apenas no Japão.
Isso significava que aplicativos desenvolvidos para um modelo de Nokia não funcionavam necessariamente em um Sony Ericsson, criando uma experiência fragmentada para usuários e desenvolvedores.
Resistência à revolução touchscreen
Quando a Apple lançou o iPhone em 2007, com uma interface totalmente baseada em toque, a Nokia insistiu que teclados físicos eram superiores. Enquanto o iOS e o Android evoluíam rapidamente para telas sensíveis ao toque, o Symbian continuou preso a um modelo de interação ultrapassado.
Burocracia e lentidão nas atualizações
A Symbian Ltd. era controlada por um consórcio de empresas, e cada decisão precisava ser aprovada por múltiplos players. Isso tornou o processo de desenvolvimento lento e cheio de entraves políticos. Enquanto a Apple e o Google lançavam atualizações anuais, o Symbian ficava estagnado.
A queda
Em 2008, a Nokia comprou a parte restante da Symbian Ltd. e anunciou que o sistema se tornaria open-source. A ideia era competir diretamente com o Android, mas a execução foi desastrosa.
Em vez de modernizar o Symbian, a Nokia manteve as múltiplas interfaces, demorou anos para lançar uma versão competitiva para touchscreen (Symbian 3, em 2010) e ignorou o crescimento das lojas de aplicativos, enquanto Apple e Google investiam pesado em suas plataformas.
Em 2011, a Nokia admitiu a derrota e fez uma parceria com a Microsoft, adotando o Windows Phone como sistema principal. O Symbian foi oficialmente abandonado, e seu código-fonte foi liberado no GitHub sob uma licença que, na prática, não é completamente open source.
Apesar de seu fracasso comercial, o Symbian deixou contribuições importantes para a computação móvel:
Um kernel avançado para dispositivos limitados
O EKA2 era um kernel em tempo real que permitia a execução de código crítico (como chamadas telefônicas) sem interferência de aplicativos. Além disso, ele tinha gerenciamento de memória extremamente eficiente, ideal para dispositivos com pouca RAM e suporte a multitarefa real, algo que o Android só implementou bem anos depois.
A arquitetura robusta do Symbian permitiu a criação de dispositivos ousados, como o Nokia 808 PureView, lançado em 2012, que tinha uma câmera de 41 megapixels, um recorde que só foi superado anos depois.
Influência no Android e em outros sistemas
Muitos conceitos do Symbian, como o uso de drivers em userspace e a modularidade via plugins, foram posteriormente adotados pelo Android.
Um sistema feito para durar
Dispositivos Symbian, como o Nokia E52, podiam ficar dias sem recarregar. Mas não podemos esquecer que os aplicativos disponíveis tinham um controle maior do fabricante e o tempo de tela dos usuários era muito menor.
Um dos meus primeiros smartphones foi um Nokia com Symbian, o qual já não me lembro o modelo. Com o iPhone, celulares Android e até mesmo o Windows Phone ganhando espaço, ele me decepcionava pela falta de aplicativos básicos como o WhatsApp. Mas sua construção em metal, corpo resistente, tela de boa qualidade e câmera excelente para a época o deixou marcado em minha memória.
Você já teve um celular com Symbian? Conte para nós pelos comentários como foi a sua experiência com este clássico da Nokia e interaja com a comunidade do fórum Diolinux Plus!