Um estudo liderado por pesquisadores da Vanderbilt Health identificou condições médicas que costumam anteceder o diagnóstico de doença de Alzheimer. Os resultados, publicados na revista Alzheimer’s Research & Therapy, apontam para a possibilidade de desenvolver intervenções capazes de reduzir o risco da doença.

O Alzheimer é um distúrbio neurodegenerativo que se desenvolve ao longo de décadas. Algumas condições de saúde na meia-idade, como hipertensão, hiperlipidemia e acidente vascular cerebral (AVC), já haviam sido associadas a um risco aumentado de Alzheimer na velhice. No entanto, segundo os autores, a lista de condições médicas capazes de prever o desenvolvimento da doença ainda era limitada.

“Se conhecermos o inventário completo das condições médicas que preveem o desenvolvimento da doença de Alzheimer dez ou mais anos depois, podemos potencialmente intervir antes que os sintomas clínicos de perda de memória e/ou comprometimento cognitivo se tornem aparentes”, afirmou, ao MedicalXpress, Xue Zhong, Ph.D., professora assistente de pesquisa em Medicina na Divisão de Medicina Genética e Farmacologia Clínica.

“Projeta-se que atrasar o início da doença de Alzheimer em apenas cinco anos poderia reduzir a taxa de incidência pela metade.” Zhong é coautora correspondente do estudo ao lado de Nancy Cox, Ph.D., professora de Medicina.

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Estudo revela condições médicas que antecedem o Alzheimer

  • Para identificar de forma sistemática as condições médicas associadas ao desenvolvimento do Alzheimer, os pesquisadores analisaram prontuários eletrônicos de saúde (EHRs, na sigla em inglês) anonimizados de dois bancos de dados independentes;
  • O primeiro foi o MarketScan, base de dados estadunidense baseada em registros de seguros de saúde, com mais de 150 milhões de indivíduos, utilizado como grupo de descoberta;
  • O segundo foi o sistema de prontuários eletrônicos da Vanderbilt Health, que reúne cerca de três milhões de pacientes, empregado como coorte independente para validação dos achados;
  • No banco MarketScan, foram identificados 43.508 indivíduos com diagnóstico de Alzheimer (casos) e 419.455 controles pareados por idade e sexo. Já no sistema da Vanderbilt Health, foram encontrados 1.320 casos e 12.720 controles correspondentes.
Duas mãos seguram um recorte em forma de cabeça humana, com uma árvore colorida dentro, cujas folhas parecem se desprender. O fundo verde claro destaca a ideia de memória se esvaindo, simbolizando o impacto do Alzheimer.
Estudo levou em conta duas grandes bases de dados, nas quais foram constatadas pessoas com Alzheimer (Imagem: Berit Kessler/Shutterstock)

Ao acompanhar os prontuários ao longo de uma janela de dez anos antes do diagnóstico de Alzheimer e comparar os registros entre casos e controles, os pesquisadores identificaram condições médicas que ocorreram com maior frequência entre aqueles que posteriormente desenvolveram a doença. Mais de 70 condições apareceram em ambos os bancos de dados, com predominância de quatro grandes grupos:

  • Condições de saúde mental, como depressão e sintomas neuropsiquiátricos graves, incluindo paranoia/psicose e ideação suicida;
  • Condições neurológicas e relacionadas ao sono, como insônia, hipersonia e apneia do sono;
  • Condições cardiovasculares e circulatórias, como hipertensão essencial, aterosclerose cerebral e isquemia cerebral;
  • Condições endócrinas e metabólicas, como diabetes tipo 2.

Os pesquisadores também recorreram a dados de dois grandes biobancos de DNA — o BioVU, da Vanderbilt Health, e o UK Biobank — para avaliar as bases genéticas dessas condições em relação à genética do Alzheimer. Foram identificadas 19 condições associadas a variantes genômicas individuais de risco ou a um escore poligênico de risco para a doença.

Os autores ressaltam que as associações observadas nos prontuários eletrônicos não comprovam uma relação causal entre as condições e o Alzheimer. Ainda assim, os resultados oferecem um roteiro baseado em dados para reconhecimento precoce de risco e pesquisas voltadas à prevenção.

“Prontuários eletrônicos longitudinais oferecem uma visão poderosa sobre o desenvolvimento da doença de Alzheimer ao longo de décadas”, disse Zhong. “Ao identificar padrões médicos que precedem consistentemente o Alzheimer, podemos abrir novas oportunidades para redução de risco, intervenção precoce e melhores desfechos para os pacientes.”

Segundo Zhong, o estudo confirma hipertensão e hipercolesterolemia como fatores de risco para o desenvolvimento do Alzheimer na velhice, sugerindo que tratar essas condições na meia-idade — por meio da adoção de estilos de vida mais saudáveis ou do uso de medicamentos anti-hipertensivos ou redutores de lipídios — pode diminuir o risco da doença.

“Também observamos uma associação inversa entre câncer e doença de Alzheimer em ambos os conjuntos de dados de prontuários eletrônicos, replicando achados epidemiológicos anteriores”, afirmou. “Agora estamos investigando os mecanismos subjacentes a esse fenômeno, com o objetivo de gerar insights que possam orientar estratégias terapêuticas inovadoras para a doença de Alzheimer.”

Além de Zhong e Cox, assinam o estudo Zhijun Yin, Ph.D., MS; Rui Chen, Ph.D.; Kerou Cheng; e Bingshan Li, Ph.D., todos da Vanderbilt Health; e Gengjie Jia, Ph.D., e Andrey Rzhetsky, Ph.D., da Universidade de Chicago (EUA).

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