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Eu não sei se já tinha comentado que moro em Dubai aqui na newsletter Primeiro Olhar. Quem acompanha o Olhar Digital News, nossa live diária, já assistiu a alguns programas apresentados daqui.

Hoje, eu trago para vocês um relato das minhas últimas 48 horas.

Acho importante trazer um contexto. Dubai é uma cidade muito segura. Há pouco mais de um ano, quando cheguei, era até difícil de perder os velhos hábitos de precaução de quem viveu tanto tempo em São Paulo.

Vamos por ordem cronológica.

Acordei no sábado e vi as notícias de que Estados Unidos e Israel realizaram um ataque contra o Irã. Naquele momento, não dava para saber se a escalada de tensão chegaria aqui. Em outros momentos, o impacto foi menor. Em junho do ano passado, em outro conflito, países da região fecharam o espaço aéreo por algumas horas depois de um ataque iraniano a uma base militar americana no Catar. O ataque veio em resposta aos bombardeios dos EUA contra instalações nucleares iranianas.

Agora é diferente.

No sábado, por volta de uma da tarde (hora local, 6h da manhã em Brasília), a tensão chegou de fato aos Emirados Árabes Unidos. Começamos a ouvir os primeiros estrondos — um barulho forte, com janelas tremendo. Não é algo comum por aqui. Eu nunca tinha ouvido um míssil. Então, a ficha só caiu pelo contexto das notícias e pelo que vinha sendo reportado ao longo do dia.

A foto abaixo mostra a fumaça no céu depois de uma interceptação.

Pouco depois, o governo confirmou oficialmente que se tratava da interceptação de mísseis e informou a morte de uma pessoa em Abu Dhabi, causada pelos destroços de mísseis abatidos.

Mais tarde, houve a confirmação de outra morte, dessa vez no aeroporto de Abu Dhabi, após um ataque iraniano com um drone. As autoridades também comunicaram que pessoas ficaram feridas em incidentes no aeroporto de Dubai e em um hotel na região de Palm Jumeirah, uma área turística e nobre da cidade.

O governo dos Emirados Árabes Unidos também enviou alertas. Primeiro, um SMS dizendo que a situação estava sob controle, mas orientando a população a buscar locais seguros. Depois, já na madrugada de sábado para domingo, veio um alerta mais incisivo, semelhante aos alarmes de Defesa Civil no Brasil, em que o celular apita e o aviso toma a tela. A orientação era clara: procurar um lugar seguro, ficar em prédios considerados seguros e longe de janelas. A mensagem chegou logo depois de estrondos fortíssimos.

Tradução: Alerta de Emergência: Devido à situação atual e a uma possível ameaça de mísseis, procure abrigo imediatamente no prédio seguro mais próximo e mantenha-se afastado de janelas, portas e áreas abertas. Aguarde novas instruções. (MOI / Ministério do Interior)

Esses estrondos se repetiram em ondas até a madrugada. Eu dormi entre duas e três horas. No começo da manhã de domingo, mais estrondos foram ouvidos na região onde eu moro. Depois, os relatos se concentraram em outras partes da cidade e em outras regiões do país.

Eu moro em Dubai Marina, um bairro muito movimentado e turístico, com muitos prédios residenciais e comerciais — além de uma área financeira importante. Agora, a movimentação é bem mais tímida.

Apesar disso, do ponto de vista do funcionamento da cidade, não houve grandes restrições. Não foi decretado toque de recolher. Serviços continuaram operando normalmente. Mercados, farmácias e restaurantes estão abertos. Os aplicativos de delivery também funcionam. Temos luz, água, internet e combustível.

O governo e as próprias redes de supermercados dizem que a população não precisa estocar alimentos. Lembra um pouco o cenário de pandemia no Brasil. Muita gente preocupada acaba fazendo compras maiores. Ontem, por exemplo, não encontrei galão de água no mercado que eu frequento e os aplicativos de delivery estavam sobrecarregados, com pedidos até bloqueados. Hoje, consegui comprar tudo o que eu precisava.

Também hoje, acordei com estrondos fortíssimos e as janelas tremendo, por volta de 9h da manhã daqui. Nos grupos de WhatsApp de brasileiros que moram por aqui, pessoas muito preocupadas pedindo alguma orientação. Mas, quando olhamos pra rua, vemos pessoas circulando, movimento nas avenidas e até gente na piscina dos prédios ao redor.

Essa é a ambiguidade: um clima de tensão muito forte, mas com sinais de normalidade na rotina — se é que dá para chamar assim.

Instituições de ensino privadas em Dubai passarão ao ensino à distância até pelo menos quarta-feira. Empresas do setor privado nos Emirados Árabes Unidos foram aconselhadas a permitir que seus funcionários trabalhem remotamente. Bolsas de valores do país ficarão fechadas por tempo indeterminado.

No sábado, o governo anunciou o fechamento do espaço aéreo dos Emirados Árabes Unidos. E, quando se fala em fechar o espaço aéreo de Dubai e Abu Dhabi, estamos falando de dois dos maiores hubs de aviação do mundo. As consequências não ficam restritas ao Oriente Médio: há um efeito em cascata no mundo todo, porque muitos voos não apenas chegam aos Emirados, como também passam por aqui em conexões para países da Ásia e até para a Austrália. É, portanto, um momento de transtornos para a aviação global.

Os números oficiais

  • Desde o início do ataque iraniano, foram detectados 165 mísseis balísticos lançados do Irã em direção aos Emirados Árabes Unidos. Destes, 152 foram destruídos e 13 caíram no mar. Dois mísseis de cruzeiro também foram detectados e destruídos.
  • Um total de 541 drones iranianos foram detectados, dos quais 506 foram interceptados e destruídos, enquanto 35 caíram em território nacional.
  • Os incidentes resultaram em três mortes e 58 feridos no país.
  • Ontem, 21 drones atingiram alvos civis.

Nos comunicados oficiais, a linha adotada foi a de buscar diálogo e saídas diplomáticas, condenando os ataques, e afirmando ter o direito de responder para defender a soberania nacional.

Os países do Golfo, através do Conselho de Cooperação, emitiram um comunicado conjunto. Estamos falando de Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Arábia Saudita, Omã, Catar e Kuwait.

“O Conselho afirmou que esses ataques constituem uma grave violação da soberania desses países, dos princípios da boa vizinhança e uma clara transgressão do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, independentemente de quaisquer justificativas ou pretextos. Ressaltou ainda que atacar civis e bens civis constitui uma grave violação das normas do direito internacional humanitário.

O Conselho afirmou que os países reservam-se o direito legal de responder, em conformidade com o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas, que garante o direito à autodefesa, individual e coletiva, em caso de agressão, e de tomar todas as medidas necessárias para salvaguardar a sua soberania, segurança e estabilidade.

Apesar dos inúmeros esforços diplomáticos empreendidos pelos países do Conselho de Cooperação do Golfo para evitar a escalada do conflito, e apesar de terem afirmado que seus territórios não seriam usados ​​para lançar ataques contra a República Islâmica do Irã, esta última continuou a realizar operações militares contra os países do Golfo, afetando inúmeras instalações civis e residenciais.”

Aqui entra um contexto importante: os Emirados Árabes Unidos costumam ser vistos como uma “bolha” no Oriente Médio. Em Dubai, estima-se que cerca de 80% da população seja estrangeira. É um país que depende muito dessa estabilidade — tanto por segurança quanto por economia — e, muito por isso, em momentos de escalada regional, o comportamento do governo costuma ser mais voltado à diplomacia.

Hoje, no Olhar Digital News, conversarei com a apresentadora Marisa Silva e com o Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação. Vamos falar sobre conflitos e guerras em tempo de novas tecnologias.

O post “Domo” protetor de Dubai intercepta centenas de mísseis e drones do Irã apareceu primeiro em Olhar Digital.

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