Há cerca de seis meses, tivemos nosso primeiro contato com o KDE Linux, na época ainda em testes iniciais. A experiência não foi das melhores: instabilidades frequentes, bugs inesperados e a sensação constante de que o projeto ainda estava longe de ser considerado maduro.
Agora, após meio ano de desenvolvimento intenso, voltamos ao sistema com outra pergunta em mente: o que mudou de fato? Em vez de um review técnico tradicional, este artigo é um relato honesto de uso contínuo, focado na evolução do projeto e no seu posicionamento atual.
Base técnica e proposta do projeto
O KDE Linux é baseado no código do Arch Linux, mas a semelhança para por aí. Ele não se comporta como um Arch tradicional com KDE instalado por cima. A base serve como fundação técnica, não como modelo de uso.
Um exemplo disso é que o gerenciador de pacotes pacman não fica disponível para o usuário final, uma decisão totalmente intencional. Sendo um sistema imutável, sua proposta não é permitir customização irrestrita, mas garantir previsibilidade, integração e controle.
Durante nossos testes, o sistema utilizava o kernel Linux Zen da série 6.18, o KDE Plasma na versão 6.6.80, além dos drivers NVIDIA da série 590. O objetivo é criar uma distribuição oficialmente alinhada ao ecossistema do KDE, profundamente integrada ao KDE Plasma, ao KWin e aos aplicativos do projeto.
A ideia é oferecer uma plataforma robusta e recomendável tanto para usuários finais quanto para fabricantes de hardware, além de servir como ambiente de referência para desenvolvedores do próprio KDE.

Primeiras impressões
A diferença em relação aos testes iniciais é perceptível logo no modo live. O sistema está mais fluido, estável e confiável. Nenhum travamento aleatório ocorreu durante os testes, algo que anteriormente era comum.
A instalação continua simples e relativamente rápida, dentro do esperado para distribuições com proposta imutável. Não há nenhuma reinvenção da roda por aqui: tudo funciona como deveria.

Detalhes também chamam atenção. Os papéis de parede padrão do Plasma estão especialmente bem escolhidos nesta versão, reforçando a identidade visual polida que o projeto busca transmitir.

Previsibilidade como prioridade
No uso diário, a evolução é sensível. O sistema apresenta menos comportamentos inesperados e menos bugs estranhos interferindo na rotina.
Os aplicativos pré-instalados funcionaram corretamente. O suporte multimídia também se mostrou sólido: YouTube, Netflix e Crunchyroll rodaram sem dificuldades. No YouTube, inclusive, foi possível reproduzir conteúdo em 4K com HDR no Google Chrome após alguns ajustes simples nas configurações do Plasma.
A imutabilidade: virtude e limite
Mesmo com base no Arch, o KDE Linux segue uma lógica diferente. A imutabilidade é um pilar central do projeto.
Isso traz ganhos de estabilidade e previsibilidade. O sistema se comporta consistentemente, reduzindo o risco de que alterações manuais comprometam a integridade da base.
Por outro lado, há limites. Usuários acostumados a modificar profundamente o sistema, instalar pacotes fora do fluxo padrão ou experimentar soluções alternativas podem se sentir restringidos. A imutabilidade exige uma relação diferente com o sistema operacional: menos experimental e mais estruturada.
Não é uma limitação técnica necessariamente negativa, mas uma escolha de filosofia.
Jogos, NVIDIA e o desafio do DaVinci Resolve
No geral, os jogos funcionaram bem. Alguns títulos exigiram ajustes adicionais, mas nada fora do esperado. O uso com placas NVIDIA foi relativamente tranquilo, embora ainda demande paciência em cenários específicos.
O maior desafio foi o DaVinci Resolve. A tentativa de instalação via ferramentas automatizadas não funcionou, já que o KDE Linux ainda não é oficialmente suportado por algumas soluções de terceiros.
Partindo para instalação manual em contêiner, foi possível criar o ambiente, mas o Resolve não conseguiu reconhecer corretamente os drivers NVIDIA. Esse tipo de limitação não é exclusivo do KDE Linux, distros imutáveis frequentemente apresentam obstáculos semelhantes.
E aqui está um ponto importante para muitos usuários: às vezes o sistema atende quase todas as necessidades, mas tropeça justamente naquela ferramenta essencial do dia a dia.

Projeto em evolução, não produto final
É importante lembrar que o KDE Linux ainda não é um lançamento oficial e está em desenvolvimento ativo. Hoje, ele faz mais sentido para quem deseja testar, reportar bugs e contribuir com o projeto.
Qualquer pessoa pode participar testando o sistema e enviando relatórios ao projeto. Esse tipo de feedback é essencial para o amadurecimento da iniciativa.
Vale a pena testar?
Sim, o KDE Linux evoluiu bastante. Mas isso não significa que ele seja indicado para todos. A adequação depende do seu perfil, do seu hardware e das suas expectativas. Em muitos casos, não é apenas o sistema que muda, mas também a nossa percepção após mais tempo de uso.
Entender isso ajuda a evitar frustrações e permite avaliar o KDE Linux pelo que ele realmente é hoje: um projeto promissor, mais maduro do que antes, mas ainda em construção.
Você é fã do KDE? Então confira uma breve história desse importante projeto do ecossistema Linux!