As ações da Microsoft sofreram uma queda expressiva nesta semana, reacendendo dúvidas em Wall Street sobre se os investimentos bilionários em inteligência artificial realmente vão se traduzir em crescimento sustentável. O papel chegou a cair 12% no intraday, o pior desempenho da empresa desde março de 2020, perdendo cerca de US$ 400 bilhões em valor de mercado.

O movimento ocorreu em meio a um sell-off mais amplo no setor de software, mas a Microsoft acabou no centro das atenções por ser uma das companhias que mais apostaram financeiramente na corrida da IA, especialmente por meio de sua parceria com a OpenAI.

Crescimento do Azure desacelera e preocupa investidores

O principal gatilho para a queda veio do mais recente relatório de resultados da empresa. A Microsoft revelou uma desaceleração no crescimento do Azure, sua plataforma de computação em nuvem, considerada o coração da estratégia de IA da companhia.

Embora o Azure ainda cresça em ritmo elevado, a empresa projeta uma expansão entre 37% e 38% no período de janeiro a março, uma estabilização após a desaceleração observada no final de 2025. Parte desse freio está ligada a restrições de capacidade de chips voltados para IA, um gargalo que afeta todo o setor.

Ao mesmo tempo, os gastos dispararam. Os investimentos em capital cresceram 66% no segundo trimestre, atingindo um recorde de US$ 37,5 bilhões em apenas três meses, impulsionados principalmente pela construção e expansão de data centers. Para o mercado, o problema é gastar muito sem retorno claro no curto prazo.

Wall Street queria monetização, não mais despesas

Analistas apontam que a frustração veio do descompasso entre expectativa e realidade. Investidores esperavam sinais mais concretos de monetização da IA, e não um novo ciclo de aumento agressivo de custos.

Dan Ives, analista da Wedbush Securities, afirmou que Wall Street queria ver menos gastos de capital e mais retorno prático em cloud e IA. Segundo ele, a Microsoft insiste que esse é um jogo de longo prazo, com 2026 sendo o ano de inflexão, mas o mercado demonstra menos paciência do que a empresa.

Esse desequilíbrio entre promessa futura e impacto financeiro imediato tem se tornado um ponto sensível para gigantes de tecnologia.

Outro elemento que pesou sobre as ações foi a revelação de que a OpenAI representa cerca de 45% do backlog de nuvem da Microsoft. Embora isso mostre a força da parceria, investidores enxergam um risco crescente de concentração.

Estimativas indicam que até US$ 280 bilhões em contratos podem estar excessivamente atrelados ao desempenho da OpenAI, uma empresa que, apesar de ser líder em visibilidade, ainda não é lucrativa e acumula cerca de US$ 100 bilhões em dívidas.

Relatos da imprensa indicam que a Microsoft pode investir mais US$ 10 bilhões adicionais na OpenAI, ampliando ainda mais sua exposição. Para parte do mercado, isso transforma o que antes era uma vantagem competitiva em uma possível vulnerabilidade.

Pressão competitiva no mercado de IA aumenta

A situação da OpenAI também contribuiu para o nervosismo. A empresa teria emitido um alerta interno no final de 2025 após o lançamento do Gemini 3, do Google, e enfrenta concorrência crescente do Claude Code, da Anthropic, que já teria ultrapassado US$ 1 bilhão em receita anualizada.

Especialistas alertam que a liderança em IA está longe de ser garantida e que o ritmo acelerado de inovação pode tornar investimentos atuais obsoletos mais rápido do que o esperado.

Para John Praveen, gestor da Paleo Leon, o temor é que os investimentos em IA acabem corroendo margens em vez de ampliá-las, ao menos no curto e médio prazo.

O impacto não ficou restrito à Microsoft. Empresas com forte exposição à OpenAI também sentiram o baque. Amazon e Nvidia, apontadas como investidoras adicionais da startup, registraram queda em suas ações ao longo do dia, ainda que em menor intensidade.

Com toda essa reviravolta financeira, uma dúvida que começa a ganhar força no mercado: se o ciclo atual da IA está entrando em uma fase de ajuste de expectativas, após anos de euforia e investimentos quase ilimitados.

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