Sim, a pirataria no Linux existe, está crescendo e funciona de um jeito muito mais bizarro do que você imagina. Há alguns dias, fizemos um post aqui no YouTube perguntando: “Você conhece alguém que pirateou ou pirateia games no Linux?”. Aproximadamente 40% responderam que sim.
Se a pergunta fosse sobre Windows, é bem possível que esse número passasse de 90%. Mas o fato de ser 40% no Linux já é curioso por dois motivos. Primeiro, porque ainda é um percentual alto para um sistema historicamente associado ao software livre. Segundo, porque usar Linux costuma reduzir a necessidade de piratear, e ao longo deste artigo você vai entender por quê.
E tem mais: o crescimento da pirataria no Linux é também um indicativo de popularidade do sistema. Onde há mercado, há oferta. Mesmo que seja um mercado informal. Agora, vamos complicar a conversa.

Pirataria é cultural e acompanha a demanda
A pirataria não surge no vazio. Ela responde à demanda, acesso e cultura. Ninguém se dá ao trabalho de crackear algo que não usa. Se existem jogos e softwares pirateados rodando no Linux, é porque existe um público no Linux grande o suficiente para justificar esse esforço.
Nos comentários da nossa enquete, algumas respostas chamaram a atenção. Teve gente dizendo que, se não fosse possível piratear games, nem usaria Linux. Pode parecer absurdo, mas entendemos perfeitamente.
Por exemplo, em 2005, o Dio ganhou seu primeiro computador, um notebook Itautec com 2 GB de RAM e 120 GB de HD. Praticamente tudo que rodava nele era pirata. O Windows XP. O Office. Os jogos gravados em CD com nome escrito de caneta.
Ele era um adolescente, não participava de debates éticos, nem tinha acesso fácil à informação. Era inocência misturada com falta de alternativa. Muita gente que hoje é profissional sério de tecnologia começou assim. No Brasil, isso é praticamente um fenômeno geracional.
Mas em 2026 é outro mundo. Hoje, piratear é frequentemente uma escolha deliberada.
A racionalização da desonestidade
No livro A Honesta Verdade Sobre a Desonestidade, de Dan Ariely, há uma tese interessante: a maioria das pessoas é desonesta, mas só um pouquinho.
Criamos narrativas internas que nos permitem “entortar as regras” sem destruir a imagem que temos de nós mesmos. “O jogo é caro demais.” “A empresa é predatória.” “Isso é protesto.”
Racionalmente, quase ninguém pirateia tudo que considera caro. Mas algumas escolhas são revestidas de justificativas heroicas. E existe um efeito psicológico importante: depois da primeira transgressão, a segunda fica mais fácil. O cérebro cansa de racionalizar.
É aqui que a conversa sai da filosofia e entra na prática.
O que usuários Linux estão pirateando?
Começando pelos jogos: praticamente tudo que é possível piratear no Windows está sendo pirateado no Linux também.
O motivo tem nome: Proton. A camada de compatibilidade da Valve permite rodar jogos Windows no Linux e, inevitavelmente, isso inclui versões piratas. Surgiram inclusive launchers open source como o Hydra Launcher, que podem gerenciar bibliotecas legítimas ou não. Mas a parte realmente estranha é outra.
Navegamos pelo Pirate Bay e encontramos torrents de distribuições Linux pagas, como o Zorin OS Pro, e até de sistemas completamente gratuitos como o CachyOS.
Piratear software livre é um contrassenso técnico e filosófico. O código já está disponível. A versão paga muitas vezes serve para financiar o desenvolvimento ou oferecer suporte. Baixar uma ISO modificada elimina justamente a parte que faz sentido pagar. Além disso, não há garantia de integridade.
Há também casos de softwares específicos como MATLAB, Wolfram Mathematica e BricsCAD, além de pacotes da Adobe adaptados para rodar via Wine. Mas aqui entra um ponto crucial: usuários Linux pirateiam menos não necessariamente por serem mais éticos, mas porque sentem menos necessidade.
Explore a loja de aplicativos da sua distro. A maioria dos programas é gratuita, sem anúncios invasivos, sem coleta agressiva de dados e com código aberto.
Ferramentas como OBS Studio, GIMP, KDEnlive, VLC media player, Mozilla Firefox e VirtualBox suprem grande parte das demandas. Antes de piratear, vale procurar alternativas.
O mito da imunidade Linux
Agora vem a parte técnica. É comum ouvir que “é mais seguro piratear no Linux do que no Windows”. E, tecnicamente, há nuances. Estudos acadêmicos mostraram que malwares Windows executados via Wine conseguiram infectar sistemas Linux em uma parcela dos testes. Em um estudo da Universidade de Leeds, cerca de 17% das amostras escaparam do ambiente Wine.
Outro estudo focado em ransomware apontou taxas ainda maiores de impacto quando executados via camada de compatibilidade.
Ou seja: não é impossível. Malwares modernos inclusive detectam o ambiente Wine e ajustam comportamento.
O que reduz o risco?
Rodar Wine em sandbox, via Flatpak, usar ferramentas como Bottles ou Lutris, evitar executar Wine como root e remover o mapeamento da unidade para a raiz do sistema. Ambientes imutáveis e firewall ativo ajudam ainda mais.
Sim, estruturalmente é mais difícil um malware Windows atingir profundamente um Linux do que o próprio Windows. Mas difícil não significa impossível. O melhor antivírus continua sendo o usuário.
Softwares piratas são vetores clássicos de botnets, trojans e ransomware. Não é razoável assumir que todos os “repackers” são altruístas. Além disso, empresas investem milhões em proteção antipirataria, um custo que acaba embutido no preço final do produto. A pirataria afeta desenvolvedores, mas também gera distorções de mercado.
Então, o que fazemos com tudo isso?
Nós não estamos aqui para dizer o que você deve fazer. A pirataria no Linux é real, crescente e estranhamente contraditória, com gente pirateando software livre enquanto roda jogos do Windows via Proton.
Ela também é um sintoma de sucesso do sistema. Onde há massa crítica, há mercado paralelo. Mas, na maioria dos casos, você provavelmente não precisa piratear. E naquele 1% restante, o risco pode ser maior do que parece.
Hoje em dia, os softwares parecem mais pesados, mais caros e, às vezes, piores do que antes. Isso alimenta frustração. Mas antes de cruzar a linha, vale explorar alternativas. Mas afinal, qual o problema dos softwares atuais?