O Linux Mint é conhecido por sua estabilidade e confiabilidade, uma distro que raramente surpreende com mudanças radicais, mas que sempre entrega uma experiência sólida e previsível. No entanto, o lançamento da versão 22.3, codinome “Zena”, desafia um pouco essa ideia. Ele chega carregado de polimentos significativos, introduz novos aplicativos que focam em resolver problemas reais dos usuários e, de forma quase inédita, promove uma reforma visual e funcional em um componente central do sistema: o menu iniciar do Cinnamon.
Esta é a última versão da série baseada no Ubuntu 24.04 LTS, servindo como o ponto final estável antes do grande salto para a base do Ubuntu 26.04 LTS, que deverá chegar com o Linux Mint 23, previsto para maio ou junho. Por isso, o Zena não é apenas uma atualização de rotina, ele consolida tudo o que a equipe do Mint vem aprimorando, trazendo um vislumbre do futuro, especialmente quando o assunto é o aguardado suporte ao Wayland. Vamos testar essa funcionalidade experimental a fundo.
Informações e controle
Antes de falarmos da nova cara do sistema, abordaremos as ferramentas adicionadas para dar mais poder e transparência ao usuário. O Linux Mint sempre foi amigável, e agora ele também quer ser mais informativo e fácil de diagnosticar.
O destaque aqui é o novo aplicativo “Informações do Sistema”. Encontrado no menu ou no painel de controle, ele vai muito além de simplesmente listar a versão do kernel (6.14) ou do ambiente Cinnamon (6.6). Esta ferramenta é um hub centralizado para solução de problemas e compreensão do seu hardware.

Sua interface organizada permite acessar rapidamente dados como o modelo do processador, quantidade de memória, armazenamento e a placa de vídeo em uso. Mas a riqueza está nas abas laterais, que oferecem um nível de detalhe impressionante:
- USB: Lista não apenas os dispositivos conectados, mas os controladores de cada porta, sua velocidade máxima de transferência e o consumo de energia de cada uma;
- GPU, PCI e BIOS: Apresentam informações técnicas detalhadas sobre esses componentes.

Além disso, o aplicativo integra funcionalidades que antes eram separadas: a ferramenta de relatório do sistema e a sessão de relatório de erros. Agora, se algo der errado, você tem um ponto de partida único e poderoso para investigar. É o Mint aplicando seu mantra de simplicidade não só para esconder complexidade, mas também para expor informações complexas de forma clara e acessível.

O redesign do menu Cinnamon
Esta é, sem dúvida, a mudança que mais vai chamar a atenção à primeira vista dos usuários. O menu iniciar do Cinnamon passou por uma reformulação que mantém sua essência funcional, mas a entrega em um pacote visual mais moderno, compacto e personalizável.

Colocando o menu antigo (da versão 22.2) lado a lado com o novo, as diferenças são claras desde o primeiro olhar:
- Perfil mais baixo e lateral esquerda redefinida: O menu é mais compacto verticalmente. No lado esquerdo, a grande novidade é a foto do usuário no topo, um toque de personalidade que também serve como atalho rápido para as configurações da conta. Abaixo, a seção de favoritos foi reorganizada. As pastas “Área de Trabalho” e “Downloads” foram promovidas para cá, saindo de um submenu, e os aplicativos favoritos agora exibem seus nomes ao lado dos ícones por padrão, melhorando a legibilidade;
- Categorias simplificadas e integração inteligente: As categorias de aplicativos agora usam ícones simbólicos (monocromáticos), dando um visual mais limpo e coerente. Um acréscimo interessante é a categoria “Favoritos”, que, curiosamente, não mostra apps, mas sim seus documentos favoritos marcados no gerenciador de arquivos Nemo. É uma integração sutil e muito prática;
- Barra de pesquisa reposicionada: Ela migrou do topo para a base do menu, uma mudança que pode demandar um breve período de adaptação;
- Descrição em contexto: Ao passar o mouse sobre um aplicativo, sua descrição agora aparece logo abaixo do nome, e não mais em uma área dedicada na parte inferior do menu. É mais direto.

Contudo, a verdadeira revolução está nas opções de customização. Clicar com o botão direito no menu e selecionar “Configurar” abre um leque de possibilidades que lembra as famosas extensões do Cinnamon, agora nativas:
Redimensionamento livre
Você pode ajustar a altura e a largura do menu quase livremente.

Controle total dos elementos
É possível ligar/desligar a exibição da foto do usuário, da barra lateral inteira, dos favoritos, dos arquivos recentes e das pastas de locais.

Ajustes finos de aparência
Escolher entre ícones simbólicos ou coloridos para categorias, alterar o tamanho dos ícones (das categorias, dos apps e da barra lateral), mostrar ou ocultar as descrições dos aplicativos e até mesmo a posição dos botões de sistema (lado da barra de pesquisa ou da barra lateral).

Comportamento
Configurar se as categorias mudam ao passar o mouse ou apenas ao clicar, ativar rolagem na lista de aplicativos e até definir para o menu abrir automaticamente quando o mouse paira sobre ele (com ajuste de delay).

Em suma, os desenvolvedores trouxeram para o núcleo do sistema muito da flexibilidade que antes era buscada em applets de terceiros.
Utilitários novos
Além do hub de informações, o Mint 22.3 apresenta mais dois novos aplicativos:
Administração do sistema
Por enquanto, é uma ferramenta focada em uma única tarefa: configurar o GRUB de forma gráfica e sem riscos. Com ela, você pode mostrar ou ocultar o menu do GRUB, definir o tempo de timeout e adicionar parâmetros de inicialização, tudo sem precisar editar arquivos de configuração manualmente. É uma adição prática numa tarefa que intimida muitos usuários. O nome genérico sugere que no futuro ela possa agregar outras ferramentas administrativas.

Configurações de Thunderbolt
Uma nova seção no painel de controle permite gerenciar dispositivos Thunderbolt, equiparando o Cinnamon a outros ambientes como GNOME e KDE. É uma adição necessária para quem utiliza hardware mais moderno com essa tecnologia.

Outros ajustes menores
A tradição do Mint é feita de pequenos ajustes que, somados, transformam a experiência. O Zena não foge à regra. Alguns destaques:
No Nemo (gestor de arquivos)
Chegou um gerenciador de modelos, permitindo que você use qualquer arquivo de qualquer pasta como base para novos documentos. Além disso, operações de copiar/mover arquivos agora podem ser pausadas e retomadas.

Notificações
Os ícones na bandeja do sistema agora exibem um badge (um pequeno número) indicando quantas notificações você perdeu.

Áreas de trabalho virtuais
O applet de workspaces agora mostra uma representação visual mais precisa das janelas abertas em cada área.

Luz Noturna
Finalmente foi adicionada a opção “Sempre Ligado”, dispensando a gambiarra de configurar um horário que cobrisse o dia inteiro.

Warpinator
A ferramenta de compartilhamento em rede local agora suporta o envio de mensagens de texto junto com os arquivos, útil para enviar instruções ou links rapidamente.

O estado do Wayland no Linux Mint
Uma das grandes expectativas para o futuro do Mint é a transição do antigo X11 para o moderno Wayland. Na versão 22.3, a sessão experimental de Wayland mostra um progresso notável e encorajador.
Nossos testes revelam uma evolução sensível em relação à versão anterior. Muitos dos bugs gráficos, artefatos visuais e problemas com acentuação que atormentavam a experiência parecem ter sido sanados. A navegação geral, a abertura de aplicativos como o painel de configurações (inclusive em seções que exigem privilégios administrativos) e o uso do navegador funcionam com fluidez.
Um teste mais desafiador foi realizado com jogos. Rodando títulos leves e até um jogo mais exigente como Rise of the Tomb Raider (em configurações mínimas), a sessão Wayland se mostrou estável. O desempenho foi compatível com o esperado para o hardware, e funcionalidades críticas como o Alt+Tab para trocar entre janelas e os atalhos de teclado responderam corretamente.

Ainda existem arestas para aparar – observamos um pequeno glitch visual ocasional e a perda do wallpaper ao visualizar as áreas de trabalho virtuais. No entanto, o caminho percorrido em um ano é impressionante. A sessão Wayland no Mint está deixando de ser uma curiosidade instável para se tornar uma alternativa viável e funcional. Tudo indica que o Linux Mint 23 tem grandes chances de adotar o Wayland como uma opção madura, se não até mesmo a principal.
Devo migrar para o Linux Mint 22.3 “Zena”?
A resposta é direta: sim, especialmente se você já é usuário do Mint 22.2. A atualização é segura e traz benefícios concretos. A única exceção notável são usuários com placas NVIDIA muito antigas que dependem do driver legado 470, incompatível com o kernel 6.14. Para eles, permanecer no 22.2 (que continuará recebendo atualizações de segurança) é uma opção válida, ainda que signifique perder as novas funcionalidades.
Para novos usuários em busca de um sistema Linux estável, completo e incrivelmente bem-acabado, o Linux Mint 22.3 é uma escolha praticamente infalível.
Ainda está decidindo qual distro adotar? Vale a pena conferir também o Bazzite, um sistema focado em estabilidade e facilidade de uso, especialmente para jogadores.