Não é de hoje que consideramos o elementary OS “o melhor sistema Linux que não conseguimos usar”. Ele sempre traz coisas incrivelmente bem feitas e, ao mesmo tempo, apresenta erros simples que parecem ter sido projetados para irritar quem já usou outro sistema operacional na vida.
Mas a cada lançamento a esperança se renova.
A recém-lançada versão 8.1, uma atualização baseada no elementary OS 8 que cobrimos em dezembro de 2024, promete corrigir ao menos parte dos problemas que apontamos anteriormente. Foram cerca de um ano de trabalho e mais de 1.100 correções desde o último lançamento.
A pergunta que fica é: esse tempo foi suficiente para tornar o elementary OS mais amigável para novos usuários de Linux?
Para responder, instalamos o elementary OS 8.1, testamos o sistema no dia a dia e agora vamos contar o que mudou, o que funciona, o que ainda está quebrado — e também trazer um ótimo exemplo de por que pesquisas com usuários são importantes, mas precisam ser feitas com cuidado.
O que há de novo sob o capô
O elementary OS 8.1 continua baseado no Ubuntu 24.04 LTS, utilizando toda a stack da Canonical, incluindo pacotes, drivers e kernel.
Entre os principais componentes, temos:
- Kernel Linux 6.14, com melhorias gerais de desempenho e compatibilidade;
- Drivers NVIDIA 580.x, com suporte atualizado para GPUs da marca;
- Mesa 25, com aprimoramentos nos drivers gráficos de código aberto.
Uma mudança importante é o uso do Wayland por padrão, inclusive em hardware NVIDIA. Trata-se de um passo importante em direção a tecnologias gráficas mais modernas e seguras.
Segundo o post oficial de lançamento, essa versão traz uma série de pequenas melhorias que, somadas, tornam o sistema mais refinado e estável. A quantidade de ajustes sugere um nível elevado de polimento e maturidade.
Foco em acessibilidade
A acessibilidade foi uma das áreas que mais recebeu atenção nesta versão, especialmente para pessoas com deficiência visual. A navegação por teclado foi aprimorada desde o instalador até o processo de configuração inicial.
Um detalhe importante é que parte desse desenvolvimento contou com a colaboração direta de um entusiasta de cibersegurança totalmente cego, que participou dos testes de acessibilidade. Esse tipo de envolvimento faz uma diferença enorme na qualidade final das soluções implementadas.
Gerenciamento de atualizações
Nesta edição, as atualizações de aplicativos e do sistema operacional foram completamente separadas. Os apps continuam sendo gerenciados pela AppCenter, enquanto as atualizações do sistema ficam concentradas na seção “Sistema” das configurações.

Essa área também reúne links para documentação, colaboração com o projeto e uma barra que mostra os valores arrecadados para o sustento do elementary OS.
Aqui vale uma observação sobre traduções: a escolha de traduzir “Drivers” como “Controladores” pode dificultar a vida de quem procura essa seção no menu. “Driver” é um termo amplamente reconhecido na informática, assim como “hardware” e “firmware”, que não foram traduzidos. Isso pode gerar confusão em uma área essencial do sistema.

Suporte ARM
O elementary OS 8.1 anuncia suporte a processadores ARM, incluindo Raspberry Pi e até computadores da Apple com chips da linha M.
A ideia de ver o elementary OS rodando em um MacBook é bastante atraente, mas a impressão é que esse suporte existe mais por conta do kernel Linux 6.14 do que por um esforço ativo e testado do projeto nessa arquitetura.
Apesar de haver uma imagem ARM disponível para download, a documentação oficial não cobre nenhum cenário específico de instalação. No fim das contas, a única conclusão possível é: só testando para saber.
A filosofia do “pague quanto quiser”
Quem nunca baixou o elementary OS pode estranhar os valores sugeridos no site oficial e achar que o sistema é pago. Essa é uma das particularidades do projeto, que adota a filosofia do “pague quanto quiser”, tanto para a distro quanto para vários apps da AppCenter.
A ideia é lembrar que software não surge do nada e que alguém precisa ser remunerado pelo trabalho. Ainda assim, é possível baixar o sistema gratuitamente: basta inserir o valor zero e o download é liberado.
AppCenter mais rápida e com suporte a complementos
A loja de aplicativos está um pouco mais rápida nas pesquisas e agora oferece suporte a complementos de aplicativos Flatpak, como plugins do OBS Studio ou do GIMP.
Esses add-ons podem aparecer tanto em buscas quanto dentro da página do próprio aplicativo. A ideia é ótima, mas a implementação deixa a desejar: a seção de complementos usa um espaço pequeno com rolagem horizontal, o que dificulta a visualização.

Seria muito mais organizado reutilizar o mesmo componente usado para o histórico de versões dos aplicativos, logo acima. Estranhamente, esse tipo de decisão passou pelo controle de qualidade de uma equipe conhecida pela atenção extrema ao design.
E infelizmente, não foi a única.
Novos aplicativos pré-instalados
O elementary OS 8.1 traz dois novos aplicativos instalados por padrão:
Maps (Mapas)
Baseado no OpenStreetMap. Sinceramente, é difícil justificar sua presença como aplicativo pré-instalado. O uso de mapas no desktop é algo que perdeu muito do sentido e ficou nichado desde quando os smartphones se popularizaram.

System Monitor (Monitor do Sistema)
Finalmente! Uma ferramenta nativa para monitorar recursos, processos e aplicativos problemáticos. Era um pedido antigo e muito bem-vindo. Ela é bem integrada ao visual do sistema e consideravelmente avançada para uma primeira versão.

Pesquisas de UX e decisões questionáveis
Aqui começam as maiores divergências desta versão.
No anúncio do elementary OS 8.1, os desenvolvedores citam uma pesquisa feita em 2021 para embasar mudanças na dock, na gestão de janelas e nas áreas de trabalho virtuais. Ou seja, dados com quase cinco anos de idade.
Segundo essa pesquisa, 75% dos usuários esperavam ver apps rodando em background na dock, e 60% usavam a multitask view para “colocar aplicativos em background”.
Com base nisso, várias mudanças foram feitas, mas o problema é como essas informações foram interpretadas.
A nova gestão de áreas de trabalho virtuais
Agora temos indicadores quadrados na dock que mostram os desktops virtuais, com miniaturas dos apps abertos. Ao lado, há um botão “+” para criar novas áreas rapidamente.

A multitask view continua existindo, mas mudou de comportamento. Ela permite ver e fechar apps, navegar entre desktops com scroll ou gestos e, tecnicamente, criar novos desktops ao chegar ao final da lista, mas não há um botão claro para isso.

Uma funcionalidade removida é a possibilidade de arrastar janelas entre áreas de trabalho, algo redundante, mas que funcionava bem na prática.
Aqui entra o conceito de “situações ótimas” em UX: quando o software funciona bem apenas se usado exatamente como o desenvolvedor imaginou. Basta fugir um pouco disso, por exemplo, abrindo muitos apps em desktops diferentes, para a dock ficar rapidamente lotada e pouco funcional.

Esse é um bom exemplo de por que pesquisas de UX precisam ser interpretadas com cuidado.
O problema real que a pesquisa não respondeu
A pesquisa identificou o que os usuários faziam, mas não por que faziam.
Dois fatores ajudam a explicar esse comportamento:
- O elementary OS não tem botão de minimizar, então mover apps para outro desktop faz o papel de minimizar;
- O sistema não tinha uma system tray. Apps como Steam ou Discord, ao serem fechados, simplesmente “somem”, mesmo rodando em background. A solução encontrada pelos usuários era mantê-los abertos em outro desktop.
Ou seja, o comportamento observado era um sintoma, não o problema em si. Ao tentar resolver isso, o elementary OS 8.1 acabou atacando a causa errada.
A (questionável) gestão de aplicativos em background
Agora, ao fechar apps Flatpak que usam o portal adequado, eles aparecem em uma nova seção da dock representando aplicativos rodando em background.

Isso é uma evolução em relação ao passado, mas os problemas são muitos:
- Os ícones aparecem duplicados;
- Clicar neles não traz o app para frente;
- O botão de fechar não encerra o aplicativo;
- Não há menus de contexto.
Além disso, essa função não funciona com aplicativos .deb ou Flatpaks sem suporte ao portal, como versões da Steam ou do Discord baixadas diretamente dos sites oficiais.
No fim, é apenas um indicador visual de que algo está rodando, sem oferecer controle real, perigosamente próximo de ser inútil.
Uma solução mais simples seria manter qualquer aplicativo em execução visível na dock, mesmo que não esteja fixado. Enquanto o app estiver rodando, ele permanece ali, com um indicador visual diferente.
Isso eliminaria a necessidade dessa nova seção confusa e se aproximaria de comportamentos já conhecidos, como no macOS. Curiosamente, ainda não entendemos por que clicar em um app aberto na dock não o minimiza, isso resolveria vários problemas de uma vez.
Detalhes de design
A dock agora conta com blur e transparência real, assim como os pop-ups de notificação. Ficou bonito.

Já o menu de acesso rápido no canto superior direito parece mal aproveitado, com muito espaço negativo. Fizemos até alguns mockups no Figma para explorar uma redistribuição mais harmônica, nada crítico, apenas para exercitar a imaginação.

O elementary OS ainda sofre com inconsistências nos controles de janelas em apps que não foram feitos especificamente para ele. Os botões podem mudar de lado, ter ou não minimizar, e isso força o usuário a “caçar” controles com o mouse.

O caso do Firefox é emblemático. Segundo Danielle Foré, uma das pessoas à frente do projeto, o problema precisaria ser resolvido pela Mozilla, já que o elementary OS não faz patches em apps externos.
Isso é compreensível, mas dado o peso do Firefox, talvez valesse um esforço maior. Especialmente considerando que soluções da comunidade já existem.
GNOME Web e gerenciamento de pacotes
O navegador padrão continua sendo o GNOME Web. Apesar do design interessante, ele tem desempenho inferior ao Firefox e foi o único aplicativo que chegou a travar durante nossos testes.
Felizmente, qualquer navegador pode ser instalado facilmente pela AppCenter via Flathub.
Quanto aos pacotes, o foco segue sendo Flatpak. Arquivos .deb ainda funcionam, mas não há suporte gráfico por padrão. O aplicativo Unboxing, disponível na AppCenter, resolve isso muito bem.
Progresso com contradições
Esta é, sem dúvida, a melhor versão do elementary OS até agora. O sistema está rápido, responsivo, mais estável e com melhorias reais em acessibilidade e refinamento geral.
Ainda assim, algumas decisões de UX criam novas frustrações, especialmente na gestão de apps em background e nos desktops virtuais.
São dois passos à frente e um para trás. Progresso, no geral.
Talvez, no futuro, o elementary OS deixe de ser “o melhor sistema que nós não conseguimos usar”. As coisas estão mudando e quem sabe, dessa vez, na direção certa.
Apesar de suas falhas, o elementary OS é inegavelmente uma distro bastante focada na UI/UX e se você ainda não está convencido sobre a importância disso para a acessibilidade do Linux para mais pessoas, temos um vídeo que pode te trazer uma nova perspectiva.