A guerra dos navegadores nunca acaba: Chrome, Firefox, Brave, Vivaldi e tantos outros disputam espaço há anos. De vez em quando, porém, aparece um projeto novo com promessas grandes demais para passar batido. É o caso do Helium Browser.
Ele se apresenta como um navegador baseado em Chromium, compatível com as tecnologias mais recentes da web, mais privado, com bloqueio forte de anúncios, sem cripto, sem monetização embutida e totalmente gratuito. Em outras palavras: desempenho parecido com o Chrome, privacidade na linha do Brave, mas sem as polêmicas. Soa quase perfeito.
A questão é: quanto disso é realidade, e quanto é marketing? A seguir, reunimos tudo o que descobrimos sobre o Helium após testar, monitorar conexões, rodar benchmarks e investigar quem está por trás do projeto.
O que é o Helium Browser
O Helium é um navegador open source, disponível para Linux, Windows e macOS, construído sobre o Chromium, exatamente como Chrome, Brave, Edge e outros. Isso significa uma compatibilidade excelente com praticamente qualquer site moderno, suporte às mesmas APIs e à Chrome Web Store para extensões e temas.
A escolha do nome não é aleatória: o hélio, elemento químico, é leve, incolor, inodoro e pouco reativo. O navegador quer encarnar essa ideia de “presença discreta”: consumir poucos recursos, não se intrometer na navegação e reduzir ao máximo o rastreamento de dados.
Por padrão, a interface é extremamente minimalista. Ao concluir a configuração inicial, a tela lembra muito a do Chrome: área em branco, barra de endereços, abas no topo, sem nenhum botão extra chamativo. A diferença visual mais marcante é o ícone de bloqueador de anúncios, baseado no uBlock Origin, já integrado ao navegador.

Arquitetura, recursos e proposta
Do ponto de vista técnico, o Helium é um “Chromium modificado” com algumas camadas próprias por cima. Entre elas estão os Helium Services, um conjunto de serviços de backend, acessados por meio de domínios da empresa responsável pelo projeto, usados como proxy para determinadas operações, especialmente relacionadas à Chrome Web Store e à filtragem de conteúdos.

A tela de primeiros passos permite definir o buscador padrão logo de cara, com várias opções focadas em privacidade, como motores que não rastreiam usuários agressivamente. Também é possível importar favoritos e dados de outros navegadores, além de ativar ou desativar recursos como o bloqueio integrado de anúncios.
Outro ponto interessante é o sistema de “bangs”, que são atalhos de busca voltados a sites específicos. A ideia é semelhante aos bangs do DuckDuckGo: você digita um prefixo e a palavra-chave, e o navegador encaminha a pesquisa diretamente para um serviço específico. O projeto afirma ter suporte a mais de dez mil desses atalhos, o que, para um navegador tão novo, é algo impressionante.
Na prática, a experiência de uso é familiar para qualquer pessoa acostumada com Chrome ou Brave: compatibilidade alta, interface conhecida, menus e atalhos herdados da base Chromium, com o adblock já preparado para filtrar anúncios e rastreadores desde o primeiro uso.
Quem desenvolve o Helium
Aqui as coisas ficam mais nebulosas. O Helium é mantido por uma empresa chamada Input, registrada no estado de Wyoming (EUA) em maio de 2024. O registro foi feito por meio de uma entidade intermediária, como a legislação local permite, o que significa que os sócios não aparecem diretamente nos documentos públicos.
No GitHub oficial do projeto, a organização do Helium tem apenas dois perfis identificados como membros: um usuário com apelido que remete a “JJ” e outro associado à sigla “WCO”, que em uma publicação no X é apontado como CEO. Não há nomes completos, fotos, currículo ou histórico profissional visível publicamente.
Essa escolha de manter a equipe anonimizada pode ser vista de duas maneiras. De um lado, é coerente com a preocupação com privacidade que o navegador tenta defender. De outro, pode gerar desconfiança, especialmente porque um navegador é o software que mais intermedia a nossa vida digital: logins, transações, comunicações, dados sensíveis passam por ele diariamente.
O modelo de financiamento
Toda vez que um serviço ou programa gratuito aparece com promessas fortes, vale se perguntar: quem paga a conta?
No caso do Helium, até o momento não há:
- Anúncios internos, painéis patrocinados ou feed de notícias embutido;
- Recursos de criptoativos ou recompensa por navegação;
- Serviços pagos associados ao navegador.
A fonte declarada de sustentação são doações. Não há, ao menos por enquanto, um plano pró, assinatura, venda de APIs ou algo semelhante.
Esse modelo é comum em vários projetos open source, especialmente os menores. Ele tem a vantagem de não criar incentivos comerciais diretos ligados à coleta de dados ou à exibição de publicidade, mas também carrega fragilidades óbvias: depende da boa vontade constante da comunidade, da disciplina dos responsáveis e, muitas vezes, de renda extra dos próprios mantenedores em outros trabalhos.
Para um projeto simples, isso pode ser suficiente. Para um navegador, que precisa lidar com falhas de segurança emergentes, mudanças constantes na web, ajustes em listas de bloqueio e evolução de recursos, a demanda de manutenção é pesada. A pergunta de longo prazo é se haverá estrutura financeira e de equipe para sustentar isso.
Conexões no primeiro boot
O site oficial do Helium traz uma afirmação ousada: o navegador não faz nenhuma conexão externa no primeiro boot. Em outras palavras, ao abrir o programa pela primeira vez, ele não conversaria com servidor nenhum, não checaria atualizações, não carregaria nada por trás, silêncio total.
Essa afirmação é, no mínimo, curiosa. É natural que navegadores façam algumas conexões ao iniciar, por exemplo para verificar novas versões, baixar listas de bloqueio ou sincronizar certificados. Dizer que não há nenhuma conexão pede verificação.Monitorando o tráfego DNS durante a primeira inicialização, o que se observa é que o Helium faz, sim, algumas conexões. Não são muitas, mas certamente não são zero.

O navegador conversa com domínios ligados à própria Input e subdomínios que correspondem aos tais Helium Services descritos na documentação. Há requisições a urlfilters.org, domínio associado a listas de bloqueio mantidas pela comunidade ligada ao AdGuard, e chamadas a um host com nome pouco amigável, mas que se resolve para infraestrutura da CDN77, uma rede de distribuição de conteúdo bastante utilizada.
Essas conexões fazem sentido: é necessário buscar listas de filtros, carregar configurações e acionar proxies utilizados para mascarar certas requisições, por exemplo durante a instalação de extensões na Chrome Web Store, reduzindo o envio de metadados diretos para o Google. Nada indica espionagem ou telemetria agressiva, tudo aponta para operações técnicas razoáveis.
O problema, portanto, não é o que o navegador faz, mas sim a forma como isso é apresentado. Falar em “zero conexões” é um exagero retórico. Na prática, o comportamento inicial do Helium é parcimonioso e bem mais contido do que o de muitos concorrentes, mas não é silêncio absoluto.
Um ponto positivo é que os Helium Services podem ser auto-hospedados: usando o docker-compose disponibilizado no repositório oficial, qualquer usuário avançado pode montar seus próprios serviços e apontar o navegador para esse endereço nas configurações. Isso reduz a necessidade de confiar em servidores de terceiros, mas é algo que claramente exige conhecimento técnico acima da média.
Desempenho e consumo de memória
Para avaliar o desempenho, faz sentido comparar o Helium com outros navegadores baseados em Chromium, especialmente aqueles que também investem em privacidade, como o Brave.
Em testes com o Web Basemark, ferramenta de benchmark para web moderna, o Helium se comporta de maneira correta, mas fica alguns pontos abaixo de Brave e Chrome na maioria dos cenários. A diferença não é gigantesca, porém existe: nos gráficos de pontuação, ele aparece um degrau abaixo, mostrando que a remoção de componentes considerados “bloat” não se traduz automaticamente em ganhos brutos de velocidade.

Quando a análise muda para o consumo de memória RAM, o quadro fica mais favorável ao Helium. Com um conjunto de oito abas abertas, misturando páginas de notícia, redes sociais, vídeos, anúncios e uso típico de navegação cotidiana, o Helium consumiu cerca de 200 MB a menos do que o Brave exibindo exatamente o mesmo conteúdo.

Para máquinas com pouca memória disponível, essa diferença pode fazer falta. Em desktops e notebooks com 4 GB ou 8 GB, somando outros programas em paralelo, um navegador um pouco mais econômico ajuda a manter o sistema responsivo.
Ainda assim, é importante ressaltar que essa economia também vem da remoção de recursos que muitas pessoas consideram essenciais, especialmente no contexto atual da web.
Limitações práticas e recursos ausentes
Boa parte do discurso de leveza e foco do Helium se apoia em escolhas conscientes de não incluir certas funcionalidades. Em muitos casos, essas ausências são apresentadas como virtude: menos código, menos superfície de ataque, menos pontos de falha. Na prática, porém, essa decisão restringe o público ideal do navegador.
As principais limitações são:
- Ausência de suporte a DRM (como Widevine), o que impede o funcionamento de vários serviços de streaming e players protegidos, como Spotify Web e alguns catálogos de vídeo sob demanda, diretamente no navegador;
- Falta de versões móveis e sincronização entre dispositivos: até o momento não há versões oficiais para Android ou iOS, nem sistema de sync de favoritos, histórico e senhas baseado em conta. Quem quiser levar esses dados de um computador para outro precisa exportar e importar manualmente ou depender de extensões e serviços externos;
- Compatibilidade potencialmente parcial com alguns temas e extensões: por conta das modificações internas e da forma como os Helium Services mediam certas requisições, há o risco de que determinados complementos não funcionem exatamente como em um Chromium “puro”;
- Ausência de gerenciador de senhas integrado: o navegador deliberadamente não inclui um password manager próprio, sob o argumento de que o ideal é separar as senhas do browser. Tecnicamente, essa visão faz sentido em termos de segurança, mas na prática afasta usuários que ainda não utilizam gerenciadores externos e para quem um cofre básico dentro do navegador já seria um avanço. Afinal, é melhor algum gerenciador de senhas do que nenhum.
Essas escolhas tornam o Helium um produto mais interessante para um perfil específico de usuário: alguém que já utiliza um gerenciador de senhas dedicado, não depende tanto de streaming via navegador e está disposto a abrir mão de algumas conveniências em troca de uma experiência mais “seca” e controlada.
Privacidade na prática: rastreadores e fingerprint
Privacidade não é só bloqueio de anúncios. Hoje, um dos mecanismos mais sofisticados de rastreamento é o chamado fingerprinting: a coleta de uma série de características do navegador e do sistema (fonte, resolução, timezone, APIs disponíveis, hardware, entre outras) para criar uma espécie de “impressão digital” única, capaz de identificar o usuário mesmo sem cookies tradicionais.
Ferramentas de análise de fingerprint ajudam a testar quão bem um navegador resiste a esse tipo de técnica. Comparando resultados de testes entre Chrome, Helium e Brave, o quadro fica assim:
O Chrome, como esperado, não oferece proteção contra fingerprinting por padrão. Ele não bloqueia esse tipo de coleta, não tenta aleatorizar dados e ainda permite ampla ação de scripts de rastreamento; o foco dele, afinal, não é privacidade.

O Helium se sai melhor, com bloqueio de anúncios e rastreadores tradicionais por meio do bloqueador integrado, reduzindo bastante o número de requisições a domínios de tracking conhecidos. No entanto, quando o assunto é fingerprint em si, a proteção é apenas parcial. O navegador ainda é relativamente identificável; em alguns testes, o resultado é “menos exposto que o Chrome”, mas longe do patamar máximo de ofuscação.

O Brave vai além: além do bloqueio agressivo de anúncios e scripts de rastreamento, implementa mecanismos de randomização de fingerprint, alterando determinados campos controladamente para evitar um perfil estável ao longo do tempo. Com isso, ferramentas de teste muitas vezes classificam a proteção como forte ou “resistente”, especialmente em configurações mais rígidas.

Em termos práticos, o Helium melhora a privacidade em relação a navegadores tradicionais, principalmente na camada de bloqueio de anúncios e trackers bem conhecidos, mas não entrega ainda o mesmo nível de proteção contra fingerprint que alguns concorrentes mais maduros.
Vale a pena usar o Helium Browser?
A resposta depende mais do tipo de usuário do que da tecnologia em si.
Para quem:
- Gosta de experimentar navegadores novos;
- Usa Linux, Windows ou macOS e já se sente confortável com aparência de Chromium;
- Dá valor a um bloqueador de anúncios integrado e configurado com cuidado;
- Prefere um navegador mais enxuto, sem conta, sem sync e sem “extras” acoplados;
- Já utiliza gerenciador de senhas externo e não depende de streaming protegido via web;
o Helium pode ser uma opção interessante, especialmente como navegador secundário dedicado a certas tarefas, ou até como principal em máquinas mais modestas, onde o menor consumo de RAM é um diferencial.
Por outro lado, para quem:
- Precisa assistir a streaming web com DRM regularmente;
- Quer sincronizar favoritos e senhas entre desktop, notebook e smartphone;
- Busca máxima proteção contra fingerprint com o mínimo de configuração;
- Valoriza saber quem são as pessoas por trás da ferramenta que intermedia quase tudo o que faz online;
os nomes mais consolidados – como Brave e Firefox, cada um com seus prós e contras – ainda soam escolhas mais equilibradas.
O Helium é um projeto jovem, com boas ideias e um posicionamento interessante: sem jogo de marketing em torno de cripto, mais foco em tornar o Chromium um pouco mais privado e um pouco mais leve. Mas ainda está em construção, tanto tecnicamente quanto em termos de confiança e estrutura.
Vale acompanhar a evolução, testar em cenários controlados e, principalmente, manter o olhar crítico: em um mundo em que o navegador concentra boa parte da nossa vida digital, nenhuma escolha deve ser feita só porque promete ser “leve, privado e gratuito”.
Aproveite que está aqui e conheça mais um novo navegador ainda mais ousado, por não ser baseado em nenhum outro: o Ladybird Browser.