O ciclo de lançamento semestral do GNOME traz consigo uma nova versão que refina, pole e, de certo modo, força uma evolução para a experiência desktop no Linux. O GNOME 49, codinome “Brescia” em homenagem à cidade italiana que sediou a conferência GUADEC deste ano, não é uma revolução, mas está repleto de novos aplicativos padrão, assim como recursos de usabilidade solicitados pela comunidade e um conjunto de polimentos visuais e técnicos que, juntos, tornam o desktop mais coeso, eficiente e moderno.

Design e experiência do usuário

O GNOME sempre priorizou uma experiência de usuário limpa e focada, e a versão 49 avança nessa filosofia com uma série de ajustes.

Uma das adições mais práticas está na tela de login. Um novo menu de acessibilidade agora reside no canto inferior direito, garantindo que ferramentas como teclado virtual, o leitor de tela Orca e alto contraste estejam sempre a um clique de distância. Isso é uma vitória para a inclusividade, resolvendo problemas comuns como um teclado Bluetooth que não conecta no momento da autenticação.

GNOME 49 tem novos aplicativos, recursos na tela de bloqueio e consolida o Wayland (2)

Na tela de bloqueio, a experiência ganha duas camadas de conveniência. Primeiro, um widget de controle de mídia agora aparece automaticamente quando áudio ou vídeo está tocando (via protocolo MPRIS), permitindo pausar, pular ou ajustar o volume sem precisar desbloquear a sessão. Segundo, e mais controverso, é a nova opção para mostrar botões de desligar e reiniciar diretamente nessa tela. Por padrão, essa opção está desativada, uma medida sensata pela prevenção de perda de dados em sessões com trabalho não salvo, mas os usuários podem habilitá-la nas configurações se desejarem.

GNOME 49 chega com fim do Xorg, Linux Mint avança, Burger King com falha grave (3)

O menu de configurações rápidas também foi reorganizado. O toggle para o modo Não Pertube  foi movido de sua localização anterior, um tanto escondida no painel de notificações/calendário, para este menu central, ao lado de outros controles do sistema.

GNOME 49 tem novos aplicativos, recursos na tela de bloqueio e consolida o Wayland (4)

Para usuários com configurações de monitor múltiplo, uma mudança no Mutter (o compositor e gerenciador de janelas do GNOME) finalmente permite controlar o brilho de cada monitor de forma independente quando o HDR está ativado.

Os polimentos visuais são evidentes em animações mais suaves para notificações, pop-overs e o painel de notificações. Pequenos detalhes, como notificações de captura de tela e gravação de tela agrupadas, ajustes de brilho em incrementos de 5% e uma indicação visual mais clara quando os limites de carga da bateria estão ativos, complementam uma experiência desktop de alta qualidade.

Novos aplicativos padrão

O GNOME 49 substitui dois de seus aplicativos padrão mais antigos por alternativas modernas e ainda mais minimalistas.O mais significativo é o adeus ao Totem, o venerável reprodutor de vídeo. Seu substituto é o Showtime, um aplicativo construído desde o início com GTK4, libadwaita e tecnologias de mídia modernas. O Showtime oferece uma interface mínima, com controles de sobreposição que desaparecem durante a reprodução. Ele suporta capítulos, legendas, faixas de áudio, velocidade de reprodução ajustável e tudo mais que a maioria dos usuários espera de um reprodutor de vídeo moderno, tudo embrulhado em uma estética que combina perfeitamente com o resto do desktop.

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Da mesma forma, o Evince (Visualizador de Documentos) passa a tocha para o Papers, um fork do Evince que foi completamente refatorado e reconstruído em Rust, utilizando GTK4/libadwaita e bibliotecas de renderização modernas. O resultado é um aplicativo mais rápido, mais responsivo e visualmente consistente, que mantém todas as funcionalidades essenciais de seu predecessor enquanto estabelece uma base mais sólida para o futuro. É importante notar que tanto o Totem quanto o Evince permanecerão disponíveis nos repositórios das distribuições para quem preferir a experiência familiar.

Nautilus mais poderoso

O Nautilus (gestor de arquivos) recebeu uma série de melhorias de usabilidade. A mais notável é um popover de pesquisa redesenhado. Ele agora usa “pills” (comprimidos visuais) para tornar os filtros de pesquisa (como Tipo, Data ou Localização) mais claros e inclui um prático widget de calendário para definir períodos de tempo de forma rápida.

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Duas novas dicas visuais melhoram o fluxo de trabalho: arquivos e pastas ocultos agora são exibidos com leve transparência, tornando-os mais fáceis de identificar. Quando você “corta” um arquivo para movê-lo (Ctrl+X), um contorno tracejado é exibido em torno de seu ícone, fornecendo um feedback visual imediato sobre o que está prestes a ser movido.

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Outras adições incluem a capacidade de copiar endereços de rede no painel de rede, carregamento incremental de arquivos em dispositivos MTP, um diálogo de renomeação em lote adaptativo e um novo atalho de teclado Ctrl + . (ponto) para abrir a pasta atual no terminal.

Atualizações nos Demais Aplicativos Principais

Quase todos os aplicativos principais do GNOME receberam alguma atenção:

  • Web (Epiphany): O navegador ganhou um novo modo de edição de favoritos, bloqueio de anúncios melhorado, conclusão inline na barra de endereços e suporte para smartcards de hardware para autenticação mais segura;
  • Calendário: Passou por uma grande reformulação. A barra lateral agora pode ser oculta, a interface é adaptativa para diferentes tamanhos de janela e os eventos têm maior contraste para melhor legibilidade. A capacidade de exportar eventos como arquivos .ics é uma adição prática;
  • Software (loja de aplicativos): Ganhou melhorias de desempenho. Os desenvolvedores eliminaram um “grande gargalo” no parsing de dados de repositórios Flatpak como o Flathub, resultando em uso reduzido de memória e buscas muito mais rápidas;
  • Snapshot (Câmera): Adicionou codificação de vídeo com aceleração por hardware, suporte para escanear QR codes espelhados e agora usa os formatos H264/MP4 por padrão.
  • Mapas: Agora permite buscar pontos de interesse para restaurantes veganos e vegetarianos e, em algumas regiões, exibe ícones de estações de trem;
  • Terminal: Introduziu um novo menu (Alt + ,) para buscar entre containers e perfis, e uma opção --fullscreen para iniciar em tela cheia.
GNOME 49 tem novos aplicativos, recursos na tela de bloqueio e consolida o Wayland (5)
Imagem: GNOME

Mutter e Wayland

O Mutter, o motor por trás do GNOME Shell, recebeu uma grande atualização incluindo o suporte para decodificação de software de 10, 12 e 16 bits (usado pelos novos wallpapers), melhorias no escalonamento fracionário para renderização mais nítida e suporte a perfis ICC.

No entanto, a mudança mais impactante do GNOME 49 não é um recurso, mas a desativação da sessão X11. A partir desta versão, o GNOME Shell executa exclusivamente no Wayland, dependendo do XWayland para aplicativos legados baseados em X11. O GDM ainda permite login em outras sessões de desktop baseadas em X11, mas a sessão nativa do GNOME não estará mais disponível nesse protocolo.

É importante entender que isso é uma desativação, não uma remoção. As distribuições ainda podem optar por reativar o suporte ao X11 na compilação, se necessário. Mas a mensagem é clara: o futuro é Wayland. A remoção completa do código X11 está planejada para o GNOME 50, marcando o fim definitivo de uma era que durou décadas.

Uma versão antes do GNOME 50

Para os usuários do Ubuntu, a maioria dessas novidades estará disponível no Ubuntu 25.10 “Oracular Oriole”, lançado em outubro de 2025, com sua versão beta chegando em meados de setembro. Já no lado Fedora, deveremos ver o ambiente gráfico na versão 43 do sistema operacional, previsto para o final de outubro. Distros rolling release como o Arch Linux e o openSUSE Thumbleweed poderão ser contempladas em breve com o GNOME 49, conforme seus calendários internos de atualização.

O GNOME 49 é uma bela amostra de tendências, não apenas de seu próprio ecossistema, mas de todo o Linux. A substituição de aplicativos antigos por novos que focam em minimalismo, a adição de recursos de acessibilidade e usabilidade práticos, e os profundos avanços técnicos no Mutter demonstram um projeto que está cuidando de seu presente e investindo agressivamente em seu futuro.

A transição completa para o Wayland é o exemplo mais forte disso. Pode ser a mudança que mais gera debate, mas é um passo necessário e confiante em direção a um stack gráfico mais moderno, seguro e eficiente. No geral, o GNOME 49 é um lançamento que oferece benefícios tangíveis, consolidando sua posição como um dos ambientes desktop mais polidos e visionários disponíveis hoje.

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