Um terremoto está prestes a sacudir o mundo dos data centers corporativos. Segundo a vice-presidente de pesquisa do Gartner, Julia Palmer, mais de 35% das cargas de trabalho atualmente em execução no VMware serão migradas para outras plataformas até 2028. A previsão, anunciada durante o simpósio do Gartner na Austrália, é um sinal das consequências da aquisição da VMware pela Broadcom e da mudança radical em seu modelo de licenciamento e parcerias.

O centro da tempestade é uma mudança recente na política de licenciamento da VMware. A Broadcom alterou as regras para que os hyperscalers (gigantes da nuvem como AWS, Azure e Google Cloud) não pudessem mais vender assinaturas VMware diretamente para seus clientes. Agora, os usuários devem comprar as licenças diretamente da Broadcom e depois usar direitos de portabilidade para executar suas cargas no ambiente de um hyperscaler. Esta manobra efetivamente transforma os hyperscalers de parceiros em meros provedores de infraestrutura para a VMware, cortando sua margem de lucro no processo.

Hyperscalers não são mais parceiros estratégicos

Segundo Palmer, essa jogada da Broadcom deixa claro que a VMware não vê mais os hyperscalers como parceiros estratégicos – e a sensação é mútua. No entanto, em um movimento astuto, as nuvens públicas continuam de braços abertos para receber cargas de trabalho VMware. O motivo? É uma estratégia de conversão de longo prazo.

“Eles sabem que, com o tempo, vão convertê-lo para a ‘nuvem própria’ [serviços nativos de cloud, não apenas IaaS]”, explicou Palmer. Ao hospedar ambientes VMware, os hyperscalers ganham a confiança do cliente e uma posição privilegiada para evangelizar os benefícios de migrar para serviços cloud nativos como AWS EC2, Azure Kubernetes Service ou Google Compute Engine, que são mais lucrativos para eles.

A analista do Gartner foi direta: “Somos todos viciados em hipervisores, e isso precisa mudar”. A aquisição da VMware pela Broadcom serve como um alerta sobre os perigos do lock-in em uma plataforma de virtualização. Quando um único fornecedor controla uma parte crítica da sua infraestrutura, ele ganha poder para alterar preços e termos drasticamente, deixando os clientes reféns.

No entanto, Palmer foi pragmática e aconselhou contra uma migração completa e apressada. Ela argumenta que nenhum concorrente oferece uma plataforma superior à VMware em todos os aspectos e que uma migração total pode levar três anos ou mais, representando um risco operacional enorme.

A estratégia recomendada é a migração seletiva e inteligente, envolvendo identificar e focar em aplicações “maduras” para modernização.

O ranking dos concorrentes segundo a Gartner

Palmer classificou as alternativas à VMware, oferecendo uma espécie de guia para os CIOs que planejam uma saída:

  • Nutanix: A principal recomendação. Embora os preços não sejam muito mais baixos, a plataforma é comparável e a empresa oferece ferramentas de migração poderosas. Seus recursos de armazenamento e suporte foram considerados superiores;
  • Nuvens Públicas (Hyperscalers): Uma opção forte, mas com ressalvas. A infraestrutura como serviço (IaaS) não é adequada para toda carga de trabalho virtualizada e pode encarecer rapidamente se não for bem gerenciada;
  • Azure Stack HCI / Hyper-V: O Azure Local (a solução on-premise da Microsoft) recebeu menção, mas com uma grande ressalva: seu cluster máximo de 16 hosts é pequeno para muitos ambientes VMware. A solução Hyper-V tradicional foi citada, mas com a observação de que a Microsoft “não está apaixonada por ela” e claramente quer levar seus usuários para o Azure puro;
  • Red Hat Virtualization: Palmer observou que é “a única opção que a VMware considera um concorrente direto”, mas pediu cautela;
  • OpenStack / KubeVirt: Foram desencorajados para a maioria das organizações, pois poucas possuem habilidades internas para dar suporte a essas plataformas complexas.

Uma “luz no fim do túnel”

Curiosamente, Palmer não descartou completamente a VMware. Ela destacou o VMware Cloud Foundation (VCF) 9 como um “lado positivo” para os clientes, descrevendo-o como um pacote sólido que reflete pesados investimentos em P&D da Broadcom. Para empresas que desejam permanecer em um modelo on-premise ou híbrido consistente, o VCF 9 pode ainda ser uma opção viável, apesar dos preços mais altos.

O relatório do Gartner pinta um panorama de insatisfação crescente: clientes reclamam do aumento de preços, da qualidade dos serviços de suporte e da lentidão para obter cotações de assinatura. O medo de novos aumentos, especialmente para licenciamento em filiais e edge computing, é um dos principais motivadores para a busca por alternativas.

A previsão de um êxodo de 35% das cargas de trabalho indica que a estratégia de “choque” da Broadcom, embora lucrativa a curto prazo, pode estar corroendo a lealdade de sua base de clientes a médio e longo prazo. O mercado de virtualização, outrora um monopólio virtual, está se abrindo para uma era de competição feroz, e os clientes estão finalmente votando com a carteira.

Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter!